domingo, 23 de agosto de 2026
SAÚDE

Leitura estimula habilidades cognitivas que inteligência artificial não substitui, apontam estudos

Pesquisas indicam que a leitura estimula memória, atenção, linguagem e raciocínio — capacidades fundamentais para avaliar e utilizar a inteligência artificial com senso crítico

Leitura estimula habilidades cognitivas que inteligência artificial não substitui, apontam estudos
Foto: Reprodução

Em um momento em que a inteligência artificial é capaz de escrever textos, resumir livros, responder perguntas e produzir conteúdos em poucos segundos, uma habilidade humana aparentemente tradicional ganha ainda mais importância: a leitura.

Pesquisas nas áreas de neurociência, psicologia, linguística e educação indicam que o contato frequente com textos não serve apenas para adquirir informação. A leitura mobiliza diferentes processos cognitivos e contribui para o desenvolvimento de capacidades como memória, atenção, linguagem, raciocínio e interpretação.

A discussão ganhou novo impulso com o trabalho do pesquisador Falk Huettig, do Instituto Max Planck de Psicolinguística, na Holanda. Em seu livro The Perks of Being a Bookworm: The Science of the Benefits of Reading, lançado em 2026, o cientista reúne pesquisas sobre os efeitos da alfabetização e da leitura no cérebro e mostra como essas experiências estão associadas a mudanças em diferentes funções cognitivas.

Quando uma pessoa lê um texto complexo, o cérebro não está simplesmente transformando letras em sons. É preciso manter a atenção, recuperar informações apresentadas anteriormente, estabelecer relações entre diferentes ideias, interpretar significados e fazer inferências sobre aquilo que não está explicitamente escrito. Esse conjunto de operações torna a leitura uma atividade cognitivamente exigente.

Uma grande meta-análise publicada em 2025 na revista Nature Communications, que reuniu 179 experimentos e 3.308 participantes, encontrou redes de controle cognitivo compartilhadas em tarefas de leitura e matemática. O estudo mostrou que atividades de leitura envolvem, além de regiões relacionadas ao processamento da linguagem, sistemas cerebrais associados ao controle cognitivo.

É justamente essa capacidade de lidar com informações complexas que se torna especialmente relevante diante da expansão da inteligência artificial.

Quanto mais poderosa a IA, maior a necessidade de pensamento crítico

Ferramentas de inteligência artificial conseguem produzir respostas convincentes mesmo quando apresentam erros. Por isso, saber utilizar essas tecnologias não significa apenas saber fazer perguntas.

É necessário avaliar a resposta, identificar informações inconsistentes, comparar fontes, perceber ambiguidades e decidir se determinado conteúdo realmente faz sentido.

Nesse cenário, a leitura funciona como uma espécie de treinamento para o usuário.

Uma pessoa acostumada a interpretar textos complexos tende a ter mais ferramentas para questionar aquilo que recebe de uma máquina. Já quem possui dificuldade para compreender informações pode encontrar mais obstáculos para identificar uma resposta incorreta ou uma argumentação mal construída.

O próprio Max Planck Institute destaca que, em um cenário marcado por smartphones, aprendizado digital e inteligência artificial generativa, a forma como as pessoas leem mudou profundamente — mas os benefícios cognitivos associados à alfabetização continuam sendo relevantes.

Outro aspecto importante é a capacidade de manter a concentração.

A rotina digital é marcada por notificações, vídeos curtos, mensagens e conteúdos que disputam continuamente a atenção. A leitura prolongada, por outro lado, exige que o cérebro permaneça envolvido com uma mesma atividade por mais tempo.

Essa habilidade pode ser particularmente importante em uma época em que grande parte das informações chega de maneira fragmentada.

Ler um livro, por exemplo, exige acompanhar uma sequência de acontecimentos, personagens ou argumentos. O leitor precisa lembrar o que aconteceu anteriormente e relacionar aquilo que está lendo com informações apresentadas ao longo da obra.

É uma experiência diferente de simplesmente consumir pequenas doses de informação.

Leitura de ficção também pode ser grande aliada

Os possíveis benefícios da leitura não se restringem ao raciocínio lógico. A leitura de ficção também vem sendo estudada pela psicologia por sua relação com habilidades sociais, como a capacidade de compreender perspectivas diferentes.

A American Psychological Association destaca que acompanhar personagens exige que o leitor interprete suas motivações, emoções, reações e objetivos. Esse exercício pode se relacionar a processos utilizados na compreensão das pessoas no mundo real.

Pesquisas sobre literatura também investigam a relação entre exposição à ficção, empatia e capacidade de compreender estados mentais de outras pessoas. Os resultados, porém, não significam que simplesmente ler um romance automaticamente torne alguém mais empático. A literatura científica apresenta resultados variados e continua investigando em quais condições esses efeitos aparecem.

Brasil enfrenta queda no hábito de leitura

O debate ganha uma dimensão ainda maior quando observado no contexto brasileiro.

A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú e o Ministério da Cultura, entrevistou 5.504 pessoas com mais de cinco anos em 208 municípios.

O levantamento mostrou que, em 2024, apenas 47% dos brasileiros se enquadravam na definição de leitor adotada pela pesquisa — pessoa que havia lido, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores. O resultado representou uma queda em relação às edições anteriores.

Segundo a Fundação Itaú, 6,7 milhões de brasileiros deixaram de ser leitores nos quatro anos anteriores à pesquisa.

O dado cria um contraste importante: justamente no momento em que a sociedade precisa lidar com uma quantidade cada vez maior de informações e com tecnologias capazes de produzir conteúdo automaticamente, a prática responsável por desenvolver parte das ferramentas necessárias para interpretar esse conteúdo apresenta retração.

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