Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros que utiliza pele de tilápia no tratamento de queimaduras está prestes a ganhar produção em escala industrial. O Ceará receberá a primeira fábrica do mundo dedicada ao processamento de pele de tilápia para uso médico, em um projeto que prevê investimento inicial de R$ 52 milhões e poderá produzir curativos biológicos em larga escala.
A unidade será instalada em Jaguaribara, no interior do Ceará, região próxima ao Açude Castanhão e que possui forte atividade de piscicultura. A escolha do local também permite aproveitar um material que normalmente seria descartado pela indústria do pescado.
A expectativa é que a fábrica tenha capacidade para processar até 12 mil peles de tilápia por dia, transformando o material em um produto destinado ao tratamento de queimaduras e outras lesões.
A tecnologia foi desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC), que há cerca de uma década investiga o potencial da pele da tilápia na medicina regenerativa. O projeto começou a ganhar destaque científico a partir de 2015 e posteriormente deu origem a uma patente para utilização do material como curativo biológico.
A pele da tilápia apresenta uma estrutura rica em colágeno, característica que despertou o interesse dos pesquisadores. Depois de passar por processos de preparação e esterilização, o material pode ser utilizado como uma espécie de cobertura sobre a área lesionada.
A proposta é que o curativo permaneça sobre a ferida, funcionando como uma barreira física e contribuindo para o processo de cicatrização. Estudos publicados sobre a tecnologia apontam que a estrutura da pele de tilápia apresenta características semelhantes às da pele humana e resultados promissores no tratamento de queimaduras.
Menos trocas de curativo e potencial redução da dor
Uma das principais vantagens estudadas está na possibilidade de reduzir a necessidade de trocas frequentes de curativos.
No tratamento convencional de queimaduras, especialmente na rede pública, é comum a utilização de pomadas e coberturas que precisam ser substituídas periodicamente. O procedimento pode provocar dor e desconforto ao paciente.
Segundo informações divulgadas sobre a tecnologia desenvolvida no Ceará, estudos apontaram potencial de redução significativa da dor em comparação com tratamentos convencionais. Isso não significa, porém, que a pele de tilápia substituirá imediatamente todos os tratamentos disponíveis. A aplicação depende de indicação médica e do tipo e extensão da queimadura.
Tecnologia brasileira que pode chegar ao SUS
O projeto ganhou importância não apenas pelo aspecto científico, mas também pelo potencial de produção nacional de um material médico.
A transformação de um subproduto da piscicultura em um insumo para a área da saúde cria uma conexão entre biotecnologia, medicina e economia circular. Em vez de ser simplesmente descartada, a pele do peixe passa por processamento para adquirir uma nova finalidade.
A UFC informou em 2025 que o projeto completava dez anos e que a universidade buscava empresas interessadas em produzir e comercializar o produto desenvolvido a partir da pesquisa.
A expectativa divulgada atualmente é de que a produção industrial permita ampliar o acesso à tecnologia e, futuramente, atender também à demanda de hospitais brasileiros. Há ainda potencial para expansão internacional, embora a implantação da fábrica e a regulamentação do produto sejam etapas fundamentais antes de uma distribuição mais ampla.
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