Uma revisão científica publicada em 2026 reacendeu o debate sobre a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e a compulsão alimentar. O trabalho analisou 41 estudos publicados ao longo de diferentes décadas e identificou uma presença predominante de alimentos altamente processados nos episódios de compulsão.
Publicado no International Journal of Eating Disorders, o estudo classificou os alimentos relatados nos episódios a partir de características como a presença de carboidratos refinados e gorduras adicionadas. Entre 404 tipos de alimentos identificados nos trabalhos analisados, 70,3% foram classificados como altamente processados, enquanto 14,9% eram minimamente processados. Todos os 41 estudos incluíram pelo menos um alimento altamente processado entre os itens consumidos durante episódios de compulsão.
Entre os alimentos mais frequentemente mencionados estavam bolo, sorvete, biscoitos e chocolate. Os pesquisadores, no entanto, fazem uma ressalva importante: muitos dos estudos analisados apresentavam descrições pouco detalhadas dos alimentos, o que limita a precisão da classificação e impede conclusões definitivas sobre causa e efeito.
Por que os ultraprocessados podem favorecer o consumo excessivo?
Uma das hipóteses investigadas pela ciência é que determinadas características dos alimentos altamente processados possam facilitar o consumo em grandes quantidades.
Produtos como biscoitos recheados, chocolates, sorvetes, salgadinhos e outros alimentos industrializados podem combinar altas concentrações de gordura e carboidratos refinados, além de apresentarem textura, sabor e densidade energética que favorecem uma ingestão rápida.
Essa hipótese também encontra respaldo em estudos experimentais. Em um ensaio clínico controlado realizado pelo National Institutes of Health e publicado na revista Cell Metabolism, 20 adultos passaram duas semanas consumindo uma dieta ultraprocessada e outras duas semanas com uma dieta não processada. As duas dietas foram planejadas para apresentar quantidades semelhantes de diversos nutrientes.
Mesmo assim, durante a fase ultraprocessada, os participantes consumiram, em média, cerca de 500 calorias a mais por dia e ganharam peso. O resultado sugere que características relacionadas ao processamento dos alimentos podem influenciar a quantidade ingerida, embora o estudo não tenha sido desenhado especificamente para investigar transtorno de compulsão alimentar.
Associação não significa que ultraprocessados causem compulsão
Apesar dos resultados chamarem atenção, a ciência ainda não permite afirmar que comer ultraprocessados provoca compulsão alimentar.
Uma revisão sistemática publicada no BMJ Open em 2024 avaliou nove estudos, envolvendo mais de 54 mil participantes, e encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados e sintomas de transtornos alimentares, incluindo compulsão alimentar e comportamento alimentar semelhante ao de dependência.
O problema é que todos os estudos incluídos eram transversais. Ou seja, avaliaram os participantes em determinado momento e não acompanharam a evolução do comportamento ao longo do tempo. Dessa forma, não é possível determinar se o maior consumo de ultraprocessados contribui para o surgimento da compulsão, se pessoas com compulsão procuram mais esses alimentos ou se os dois fenômenos são influenciados por outros fatores.
Uma revisão publicada em 2026 no European Eating Disorders Review chegou a uma conclusão semelhante. Após analisar estudos envolvendo mais de 47 mil adolescentes e adultos, os pesquisadores encontraram associações mais frequentes entre ultraprocessados e sintomas como compulsão, bulimia, alimentação noturna e perda de controle alimentar. Porém, ressaltaram que o pequeno número de estudos, a predominância de pesquisas transversais e a diversidade dos métodos utilizados ainda impedem conclusões causais.
O que caracteriza a compulsão alimentar?
A compulsão alimentar não deve ser confundida com um episódio ocasional de exagero à mesa. O transtorno é caracterizado por episódios recorrentes nos quais a pessoa consome uma quantidade de alimentos significativamente maior do que a habitual em determinado período e, principalmente, experimenta sensação de perda de controle sobre o próprio comportamento alimentar.
Entre os sinais associados estão comer rapidamente, continuar se alimentando mesmo estando desconfortavelmente cheio, comer sem fome, preferir comer sozinho por vergonha e experimentar culpa ou sofrimento intenso depois do episódio. Para o diagnóstico, os episódios precisam ocorrer, em média, pelo menos uma vez por semana durante três meses e causar sofrimento significativo.
Por isso, especialistas destacam que a compulsão alimentar é um transtorno complexo, que envolve fatores biológicos, psicológicos, comportamentais e ambientais.
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