quarta-feira, 2 de setembro de 2026
saúde

Vacina contra o tabagismo é desenvolvida no Brasil e apresenta resultados iniciais

Pesquisa conduzida pelo laboratório Cristália apresentou resultados iniciais em animais e busca impedir que a nicotina chegue ao cérebro

Vacina contra o tabagismo é desenvolvida no Brasil e apresenta resultados iniciais
A proposta demonstrou capacidade de induzir a produção de anticorpos contra a nicotina e impedir a instalação da dependência em modelos animais Foto: Reprodução

Uma pesquisa brasileira pode abrir uma nova frente no combate à dependência de nicotina. O laboratório Cristália apresentou na última quinta-feira (27) resultados preliminares de uma candidata a vacina contra o tabagismo. O projeto ainda está em fase pré-clínica, ou seja, não começou a ser testado em seres humanos. Nos experimentos realizados até agora, a proposta demonstrou capacidade de induzir a produção de anticorpos contra a nicotina e impedir a instalação da dependência em modelos animais.

A estratégia é diferente da de medicamentos usados atualmente para ajudar quem quer parar de fumar. A vacina pretende estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de se ligar à nicotina ainda na corrente sanguínea. Com a formação desse complexo, a substância teria dificuldade para atravessar a barreira que protege o cérebro e, consequentemente, chegaria em menor quantidade aos receptores responsáveis pela sensação de recompensa associada ao consumo. A expectativa é que isso também possa ajudar a reduzir o risco de recaídas.

A ideia, porém, não é nova. Pesquisadores de diferentes países estudam vacinas contra a nicotina há décadas. O principal obstáculo tem sido conseguir uma resposta imunológica forte e duradoura o suficiente. Uma revisão da Cochrane, que analisou quatro ensaios clínicos com vacinas antinicotina e 2.642 fumantes, concluiu que os estudos disponíveis não demonstraram benefício estatisticamente significativo na abstinência de longo prazo em comparação com placebo. Atualmente, não existe vacina contra a nicotina licenciada para uso público.

É justamente esse histórico que exige cautela diante do anúncio. Segundo o laboratório, a nova candidata apresentou resultados positivos nos testes iniciais, mas ainda precisa passar por estudos pré-clínicos completos e, posteriormente, por ensaios clínicos em humanos, divididos nas fases necessárias para avaliar segurança, resposta imunológica e eficácia. A empresa informou que está reunindo os dados para um pedido de patente e que a publicação científica dos resultados ocorrerá após esse processo.

Enquanto a pesquisa avança, o tratamento da dependência de nicotina já está disponível no Sistema Único de Saúde. O combate ao tabagismo inclui acompanhamento comportamental e medicamentos de apoio, como terapias de reposição de nicotina. Evidências reunidas pela Cochrane mostram que combinar diferentes formas de reposição de nicotina pode aumentar as chances de abandono do cigarro em relação ao uso de uma única modalidade.

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