terça-feira, 3 de novembro de 2026
meio ambiente

Estimativa de mortes por calor durante El Niño quase dobra e chega a 857 mil

Nova projeção quase dobra estimativa anterior, de 451 mil mortes. No Brasil, cerca de 19 mil mortes adicionais relacionadas às altas temperaturas são estimadas para os próximos seis meses.

Estimativa de mortes por calor durante El Niño quase dobra e chega a 857 mil
Foto: Reprodução

O atual episódio de El Niño pode estar associado a aproximadamente 857 mil mortes adicionais relacionadas ao calor extremo em todo o mundo até março de 2027. A estimativa é do Climate Impact Lab, grupo de pesquisadores ligado à Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, que atualizou os cálculos e lançou uma ferramenta para acompanhar os impactos do fenômeno em diferentes regiões do planeta.

O número representa quase o dobro da projeção anterior, de aproximadamente 451 mil mortes, divulgada em setembro. Do total estimado, cerca de 373 mil mortes adicionais são projetadas para os próximos seis meses. No Brasil, a previsão é de aproximadamente 19 mil mortes acima da média associadas às altas temperaturas nesse período.

Os pesquisadores ressaltam que os números são estimativas produzidas por modelos matemáticos, e não registros de mortes já confirmadas ou casos individualmente atribuídos ao El Niño. O cálculo considera o aumento da mortalidade relacionado às temperaturas em comparação com a média histórica utilizada pelo estudo.

Países do Sul Global concentram maior risco

As projeções indicam que os países do Sul Global devem concentrar a maior parte das mortes adicionais relacionadas ao calor nos próximos meses. Entre os países com os maiores números estimados estão a Nigéria, com cerca de 56 mil mortes, e a Índia, com aproximadamente 55 mil. A Indonésia aparece na sequência, com cerca de 29 mil.

O Brasil também está entre os países mais afetados pela projeção. Segundo o Climate Impact Lab, as mortes relacionadas ao calor devem ficar acima da média em cada mês do período analisado, totalizando aproximadamente 19 mil casos adicionais.

A diferença entre os países não está relacionada apenas à intensidade das temperaturas. O modelo também considera fatores como as condições climáticas locais, a vulnerabilidade da população e a capacidade de adaptação de cada região. Locais com menos estrutura para enfrentar períodos de calor intenso podem apresentar riscos maiores à saúde.

Por que a estimativa de mortes aumentou?

O aumento em relação à projeção divulgada em setembro é explicado principalmente por dois fatores. O primeiro foi a inclusão de março de 2027 no período analisado, ampliando o intervalo considerado pelos pesquisadores.

O segundo foi a substituição das previsões de temperatura de agosto e setembro pelos dados efetivamente observados nesses meses. As temperaturas registradas foram mais altas do que as inicialmente projetadas: agosto de 2026 foi o mais quente já registrado para o mês, enquanto setembro ficou em segundo lugar no ranking histórico, segundo os dados utilizados pelo grupo.

Com a atualização, o levantamento passou a reunir estimativas relacionadas ao calor desde o início do fenômeno, em junho de 2026, e projeções para os meses seguintes.

El Niño pode ser um dos mais intensos desde 1950

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa mudança altera a circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.

A intensidade do episódio atual também chama a atenção dos órgãos de monitoramento climático. Em boletim divulgado em 8 de outubro, o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontou que o fenômeno continuava se fortalecendo.

A agência indicou uma probabilidade de 83% de que o El Niño alcance intensidade histórica entre outubro e dezembro, superando os eventos registrados desde 1950. Também avaliou que há mais de 83% de chance de o fenômeno permanecer forte ou muito forte entre janeiro e março de 2027.

No Brasil, os efeitos não devem ser iguais em todas as regiões. Boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por instituições como INMET, INPE, ANA e Cemaden, apontou tendência de temperaturas acima da média em quase todo o país no trimestre de outubro a dezembro. Para as chuvas, a previsão indicou maior probabilidade de volumes acima da média no Sul e em parte do Sudeste, enquanto áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderiam registrar precipitações abaixo do normal.

Como os pesquisadores calculam as mortes?

Para produzir as estimativas, o Climate Impact Lab utiliza modelos que relacionam as temperaturas diárias à mortalidade por todas as causas. O cálculo considera as diferenças de clima, vulnerabilidade e capacidade de adaptação das populações.

Os pesquisadores combinam dados de temperatura já observados com previsões climáticas para os seis meses seguintes. A partir dessas informações, calculam a mudança estimada no número de mortes relacionadas ao calor em cerca de 3,7 mil regiões administrativas, como estados e províncias, distribuídas pelo mundo.

A ferramenta permite consultar os dados por país e região, além de acompanhar a evolução mensal das projeções. O rastreador deve ser atualizado mensalmente até o fim do atual episódio de El Niño.

O grupo destaca que as estimativas podem ajudar governos e organizações a identificar as áreas mais vulneráveis e direcionar medidas de prevenção. Entre as ações apontadas estão a criação de sistemas de alerta para ondas de calor, a ampliação do acesso aos serviços de saúde, a oferta de água e espaços de resfriamento e a proteção de trabalhadores expostos a temperaturas elevadas.

Segundo os pesquisadores, medidas de adaptação e prevenção podem evitar dezenas de milhares de mortes durante o período de maior risco.

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