domingo, 18 de outubro de 2026
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Inpe receberá R$ 147,6 milhões para desenvolver inteligência artificial contra o desmatamento

Projeto financiado pelo Fundo Amazônia prevê integrar sistemas de monitoramento, ampliar alertas para todos os biomas e identificar áreas com maior risco de degradação e queimadas.

Inpe receberá R$ 147,6 milhões para desenvolver inteligência artificial contra o desmatamento
Sede do INPE em SJC

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) receberá R$ 147,6 milhões do Fundo Amazônia para desenvolver tecnologias de inteligência artificial voltadas ao monitoramento do desmatamento no Brasil. O projeto prevê acelerar a identificação de áreas desmatadas, aprimorar o mapeamento de queimadas e antecipar regiões com maior risco de perda de vegetação nativa.

Batizada de SIM-Biomas, a iniciativa foi anunciada na sexta-feira (16), mesma data em que o governo federal divulgou os dados mais recentes sobre o desmatamento na Amazônia, que registrou o menor índice desde 1988.

Atualmente, o Inpe utiliza dois sistemas principais para acompanhar a perda de vegetação. O Programa de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) calcula a taxa anual de desmatamento com maior precisão, enquanto o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) emite alertas mais frequentes para orientar a fiscalização.

A proposta é integrar as duas ferramentas, combinando a precisão do Prodes com a agilidade do Deter. Com isso, o instituto pretende produzir informações em intervalos menores e reduzir o tempo entre a identificação de mudanças na vegetação e o envio de alertas aos órgãos responsáveis pelo controle ambiental.

Monitoramento será ampliado para todos os biomas

O projeto também prevê a expansão dos alertas diários de desmatamento para a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa. Atualmente, o Deter monitora a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal.

Outra mudança será no mapeamento de áreas queimadas. A resolução dos mapas, que em parte do país ainda utiliza áreas de 1 quilômetro de lado, deverá chegar a 30 metros em todos os biomas. A melhoria permitirá identificar com mais precisão os locais atingidos pelo fogo e a extensão das áreas afetadas.

Além de registrar a perda de vegetação já ocorrida, o Inpe pretende desenvolver ferramentas para indicar onde o desmatamento e a degradação têm maior probabilidade de acontecer nas semanas e nos meses seguintes.

Para isso, o sistema deverá cruzar informações sobre a vegetação com dados fundiários, socioeconômicos e climáticos. As análises poderão considerar áreas como bacias hidrográficas e terras indígenas, enquanto ferramentas de simulação permitirão avaliar possíveis cenários de longo prazo.

Como a inteligência artificial será utilizada

A tecnologia será aplicada à análise de imagens de satélite. Com técnicas de aprendizado de máquina, os algoritmos serão treinados para reconhecer padrões associados ao corte de árvores, à degradação da vegetação e às marcas deixadas por incêndios.

A automação deverá acelerar a interpretação das imagens e a geração de alertas, permitindo que o instituto produza informações com maior frequência. Atualmente, o Prodes divulga a taxa anual de desmatamento, enquanto o Deter fornece alertas mais rápidos para apoiar as ações de fiscalização.

Segundo o diretor do Inpe, Antônio Miguel Vieira Monteiro, os softwares e métodos desenvolvidos pelo projeto serão disponibilizados de forma aberta, permitindo que outras instituições utilizem e verifiquem as tecnologias.

Projeto também prevê medição de gases e nova plataforma

O investimento inclui o aprimoramento das estimativas de emissões de gases de efeito estufa na Amazônia. Sobrevoos deverão coletar amostras do ar para medir dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O) e monóxido de carbono (CO).

Os resultados serão comparados às estimativas calculadas a partir das mudanças na vegetação, com o objetivo de reduzir incertezas. Também estão previstos mapas atualizados de biomassa e carbono da Amazônia e do Cerrado, que poderão ser utilizados nos inventários nacionais de emissões e nos relatórios apresentados pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris.

Outra entrega será a plataforma pública TerraBrasilis++, que reunirá mapas, alertas e indicadores ambientais. O sistema deverá contar com uma Sala de Situação ampliada e uma Sala de Cenários, voltada a projeções futuras.

O projeto também prevê ampliar a capacidade de processamento e armazenamento de dados do instituto e aprimorar o Brazil Data Cube, infraestrutura utilizada para organizar e analisar imagens de satélite.

Investimento ocorre após anos de restrições orçamentárias

O aporte anunciado ocorre após um período de dificuldades financeiras enfrentadas pelo Inpe. Em 2021, o instituto recebeu R$ 79 milhões, o menor orçamento da série histórica iniciada em 2006. Naquele período, chegou a enfrentar o risco de interromper atividades por falta de recursos para despesas básicas.

Em 2019, o instituto também foi alvo de críticas do então presidente Jair Bolsonaro, que questionou os dados de desmatamento da Amazônia e classificou os levantamentos como fraudulentos. Na ocasião, o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, foi demitido após defender publicamente a credibilidade dos dados.

A recomposição orçamentária começou em 2023, quando os recursos chegaram a R$ 129 milhões. O orçamento caiu para R$ 120 milhões em 2024 e R$ 102 milhões em 2025.

Os R$ 147,6 milhões anunciados para o SIM-Biomas, porém, não fazem parte do orçamento regular do instituto. O dinheiro será repassado como apoio não reembolsável do Fundo Amazônia, mecanismo criado para financiar ações de prevenção e combate ao desmatamento e de promoção do uso sustentável da floresta.

O fundo é administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em coordenação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Desde sua criação, acumulou R$ 5,3 bilhões em doações e aprovou 159 projetos, com atuação em três de cada quatro municípios da Amazônia Legal.

Apesar dos avanços tecnológicos previstos, a efetividade do sistema dependerá também da capacidade dos órgãos ambientais de transformar os alertas em ações de fiscalização e prevenção.

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