Enquanto países europeus conseguem reduzir os casos de demência entre idosos, a América Latina segue na direção oposta. Um estudo internacional publicado nesta quarta-feira (16) na revista científica JAMA Neurology revelou que a prevalência da doença aumentou significativamente na região nas últimas duas décadas, reforçando o alerta para a necessidade de políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável.
A pesquisa comparou dados de quase 17 mil pessoas com 65 anos ou mais, coletados em diferentes períodos na América Latina, Caribe, Estados Unidos e Europa. Os pesquisadores observaram que, enquanto países de alta renda registraram estabilidade ou redução nos casos de demência, os países latino-americanos apresentaram crescimento expressivo.
De acordo com o levantamento, a prevalência da doença na América Latina passou de 10,6% para 16,9% em aproximadamente 20 anos. Já em diversos países europeus, a tendência foi de queda, resultado atribuído à melhoria das condições de vida, maior acesso à educação, controle de doenças crônicas e fortalecimento dos sistemas de saúde.
Os maiores aumentos foram registrados em países como México, Peru e Porto Rico. Em contrapartida, Cuba e República Dominicana apresentaram índices praticamente estáveis durante o período analisado.
Segundo os autores, o envelhecimento da população explica apenas parte desse avanço. Mesmo após considerar fatores como idade, escolaridade, hipertensão, diabetes e outras doenças cardiovasculares, o crescimento dos casos permaneceu. Isso indica que fatores ambientais, sociais e relacionados ao estilo de vida acumulados ao longo da vida também exercem influência importante no desenvolvimento da doença.
Especialistas destacam que a chamada "reserva cognitiva" — capacidade do cérebro de resistir aos danos provocados pelo envelhecimento e por doenças neurodegenerativas — está diretamente ligada à escolaridade, ao estímulo intelectual e à manutenção de hábitos saudáveis. Países que ampliaram o acesso à educação e investiram na prevenção de doenças cardiovasculares conseguiram reduzir o risco de demência entre seus idosos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou retardados com a redução de fatores de risco modificáveis. Entre eles estão hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, perda auditiva não tratada, depressão e isolamento social.
Na América Latina, estudos anteriores já apontavam que mais da metade dos casos da doença está associada a fatores potencialmente evitáveis, percentual superior ao observado em outras regiões do mundo.
Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, especialistas alertam que o número de pessoas com demência deve continuar aumentando nas próximas décadas caso medidas preventivas não sejam fortalecidas. Além do impacto na qualidade de vida dos pacientes, a doença representa um desafio crescente para familiares, cuidadores e para os sistemas públicos de saúde.
Os pesquisadores defendem que ampliar o acesso à educação, incentivar hábitos saudáveis desde a juventude, controlar doenças crônicas e facilitar o diagnóstico precoce são medidas essenciais para frear o avanço da demência e reduzir seus impactos sociais e econômicos no futuro.
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