Uma empresa britânica de biotecnologia agrícola desenvolveu uma variedade de banana que demora mais para escurecer depois de ser descascada ou cortada. A inovação utiliza edição genética para reduzir a ação de uma enzima responsável pela mudança de cor da polpa e pode ampliar o uso da fruta em alimentos prontos para consumo, além de contribuir para a redução do desperdício.
A variedade foi desenvolvida pela Tropic, empresa especializada em melhoramento genético de culturas agrícolas. Segundo a companhia, a banana mantém o sabor e a textura característicos da fruta convencional, mas permanece amarela por mais tempo após ser aberta ou cortada.
Em declarações reproduzidas pelo jornal britânico The Guardian, o diretor-executivo da empresa, Gilad Gershon, afirmou que a polpa pode levar pelo menos um ou dois dias a mais para escurecer. O período pode ser ainda maior quando a fruta é mantida sob refrigeração.
Como funciona a tecnologia
O escurecimento da banana ocorre principalmente pela ação da enzima polifenol oxidase (PPO). Quando a fruta é descascada ou cortada, os tecidos internos entram em contato com o oxigênio do ar, desencadeando reações químicas que provocam o aparecimento de manchas escuras.
Para retardar esse processo, os cientistas da Tropic utilizaram a técnica de edição genética CRISPR-Cas9, que permite fazer alterações específicas no DNA. O método foi empregado para reduzir a produção da enzima responsável pela oxidação, sem a necessidade de introduzir material genético de outras espécies.
A tecnologia busca preservar a aparência da fruta por mais tempo, sem alterar suas características de consumo. Estratégias semelhantes de edição genética também vêm sendo estudadas e aplicadas em outros alimentos, como cogumelos, tomates e morangos.
Objetivo é reduzir o desperdício
A mudança na aparência pode influenciar a decisão de consumidores e comerciantes de descartar bananas que ainda estão próprias para o consumo. Com o escurecimento mais lento, a expectativa é ampliar o tempo em que a fruta mantém uma aparência considerada atrativa.
A inovação também pode facilitar o uso de bananas em produtos pré-embalados, como saladas de frutas e refeições prontas para o café da manhã, nos quais a mudança de cor costuma comprometer a apresentação do alimento.
Um levantamento do governo britânico divulgado em 2017 apontou que cerca de 1,4 milhão de bananas próprias para consumo eram descartadas diariamente no Reino Unido. Segundo o estudo, parte dos consumidores jogava a fruta fora ao perceber manchas escuras ou pequenos amassados.
A Tropic também estima que a tecnologia possa contribuir para reduzir as emissões de gases de efeito estufa associadas ao desperdício e à cadeia de exportação de bananas. A empresa projeta uma redução superior a 9 milhões de toneladas de CO₂ por ano no mercado de exportação, embora esse resultado dependa da adoção da variedade e da redução efetiva das perdas.
Banana já tem autorização para venda no Brasil
A empresa informou que a variedade já recebeu autorizações para comercialização no Brasil, no Japão e nas Filipinas. No Reino Unido, o produto também obteve aval do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra), conforme as regras inglesas para plantas desenvolvidas por meio de técnicas de melhoramento genético de precisão.
Apesar disso, a liberação para comercialização como alimento no mercado britânico ainda depende de uma avaliação da Agência de Padrões Alimentares do país.
O desenvolvimento faz parte de uma série de pesquisas que buscam utilizar a edição genética para melhorar características agrícolas e reduzir perdas na produção e na distribuição de alimentos. No caso da banana, a proposta é prolongar a aparência fresca da polpa sem modificar o sabor e a textura, o que pode favorecer o aproveitamento da fruta em diferentes etapas da cadeia de consumo.
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