quarta-feira, 16 de setembro de 2026
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Ataques ao voto feminino ganham espaço com rede de influenciadores conservadores

Influenciadores como Paulo Figueiredo, Renato 38ão, Fernanda Guardian e Pietra Bertolazzi questionam o sufrágio feminino; especialistas alertam para os riscos da normalização desse discurso

Ataques ao voto feminino ganham espaço com rede de influenciadores conservadores

Declarações de influenciadores como Paulo Figueiredo, Renato 38ão, Fernanda Guardian e Pietra Bertolazzi colocaram o voto feminino novamente no centro de uma discussão que ganhou força nas redes sociais brasileiras. Em vídeos, podcasts e publicações que alcançam milhares de pessoas, os influenciadores questionam a participação das mulheres nas eleições, criticam o modelo democrático atual ou defendem mudanças nos papéis tradicionais de homens e mulheres.

Um dos episódios que mais repercutiram ocorreu em junho, quando Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, afirmou em uma transmissão que mulheres, especialmente as solteiras e mais jovens, votariam “estatisticamente mal”. A declaração provocou reação inclusive no campo da direita. O senador Flávio Bolsonaro repudiou a fala e afirmou que o caminho seria convencer as mulheres das propostas políticas, e não questionar o direito delas de votar.

Figueiredo, no entanto, não é uma voz isolada nesse debate. O conteúdo investigado pela BBC News Brasil aponta para a existência de um ecossistema digital no qual aparecem críticas ao sufrágio feminino e à autonomia das mulheres.

O discurso da “machosfera”

Entre os nomes presentes nesse ambiente está o influenciador Renato Amoedo, conhecido nas redes como Renato 38ão. O influenciador, que já acumulou centenas de milhares de seguidores e participa frequentemente de podcasts, publicou críticas ao voto de mulheres solteiras e defendeu uma visão tradicional dos papéis femininos.

Em uma de suas declarações, afirmou que colocar estudo e trabalho como prioridades seria uma forma de “autodestruição” para a mulher. Em outra fala, relacionou a conquista da independência econômica feminina ao crescimento do Estado de bem-estar social.

Amoedo também defendeu que a maternidade deveria ocupar uma posição central na vida das mulheres e fez outras declarações controversas sobre relacionamentos e casamento infantil.

A BBC News Brasil afirma ter procurado o influenciador para comentar suas declarações, mas não obteve entrevista.

Renato 38ão é presença frequente no Redcast, podcast apresentado por Junior Masters e voltado, em parte, ao público associado à chamada “machosfera” — termo utilizado para descrever comunidades digitais que discutem masculinidade, relacionamentos e comportamento a partir de uma perspectiva de valorização do papel masculino tradicional.

Mulheres também questionam o sufrágio

O movimento, porém, não é formado apenas por homens.

A influenciadora Fernanda Guardian, que possui cerca de 300 mil seguidores no Instagram, já publicou conteúdos afirmando que abriria mão do próprio direito de votar.

Em uma das publicações, questionou qual seria o benefício pessoal de possuir o direito ao voto e afirmou que considera o sufrágio feminino um erro.

Guardian também relacionou o comportamento eleitoral das mulheres à maior preferência por candidatos de esquerda. Ela não quis conceder entrevista à BBC News Brasil para comentar suas declarações.

Outra influenciadora que entrou nessa discussão é Pietra Bertolazzi, que possui mais de 1 milhão de seguidores e defende publicamente uma visão tradicional dos papéis de gênero, incluindo a submissão feminina ao homem dentro do casamento.

Em entrevista, Bertolazzi afirmou que é contrária ao modelo democrático contemporâneo e defendeu uma monarquia. Segundo ela, suas declarações não significam que tenha defendido diretamente a retirada do direito das mulheres de votar.

“O voto feminino é o erro da democracia ocidental”

A frase se tornou uma das mais reproduzidas nesse ambiente digital.

Ela foi utilizada em discussões no podcast Redcast e acabou sendo compartilhada em cortes nas redes sociais, alcançando públicos muito maiores do que aqueles que acompanham os programas completos.

Em um dos episódios, uma espectadora perguntou aos participantes o que pensavam sobre a possibilidade de extinguir o voto feminino.

Ana Hering, integrante do Movimento Brasil Livre e candidata a deputada federal pelo partido Missão, afirmou que “o mundo começou a desandar quando a mulher começou a dar a opinião dela”.

Posteriormente, Hering explicou à BBC que a fala foi uma piada e que ela havia entrado em uma provocação feita pelo apresentador.

O próprio Junior Masters afirmou que não é contrário especificamente ao voto feminino, mas ao voto de maneira geral. Ele não concedeu entrevista para explicar com maior profundidade a declaração.

Mulheres seriam mais influenciáveis?

Além da crítica direta ao sufrágio, outro argumento recorrente nesses conteúdos é a ideia de que mulheres teriam menor capacidade de avaliar informações políticas.

Durante o mesmo episódio do Redcast, Hering afirmou que mulheres naturalmente se interessariam menos por política e tenderiam mais a “comprar discursos prontos”.

Questionada pela BBC, a candidata manteve a afirmação, dizendo que o menor interesse feminino pela política poderia levar a uma maior adesão ao senso comum.

O apresentador Junior Masters também afirmou que o cérebro feminino funcionaria predominantemente pela empatia, enquanto o masculino teria um funcionamento mais sistemático.

A neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora da Universidade Vanderbilt, contesta esse tipo de interpretação. Segundo ela, não é possível estabelecer, a partir do gênero, uma divisão tão simples sobre a forma como homens e mulheres pensam ou tomam decisões.

A discussão chega à política

A crítica ao voto feminino também passou a aparecer em debates políticos mais amplos.

No chamado Livro Amarelo, publicação associada ao Movimento Brasil Livre e ao partido Missão, um dos volumes apresenta o conceito de “democracia familiar”, no qual a família seria tratada como uma unidade política.

A proposta levantou questionamentos sobre a possibilidade de substituir o voto individual por uma lógica baseada na família.

O partido Missão afirmou que os textos possuem caráter ensaístico, funcionando como exercícios de imaginação política e provocações, e que não representam necessariamente seu programa.

Renan Santos, candidato da legenda à Presidência, também declarou que o voto familiar não faz parte de seu programa de governo.

Mesmo assim, deputadas federais pediram à Procuradoria-Geral da República que avalie se propostas e declarações relacionadas ao tema podem representar tentativa de intimidar mulheres ou deslegitimar sua participação nas eleições.

Especialista vê risco de normalização

Para a historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), questionar o voto feminino vai além de uma simples opinião sobre o sistema eleitoral.

Segundo ela, a repetição desse tipo de discurso pode fazer com que ideias de restrição democrática passem a ser encaradas como normais.

A pesquisadora considera que a discussão também representa uma reação às transformações sociais ocorridas ao longo do último século, especialmente à ampliação da autonomia feminina e à distribuição do poder político para grupos que historicamente tinham menor participação nas decisões.

Cármen Lúcia: “Há sempre alguém que quer o retrocesso”

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, também comentou o fenômeno em entrevista à BBC News Brasil.

Para a ministra, a Constituição brasileira estabelece barreiras à retirada de direitos fundamentais e impede uma mudança que simplesmente eliminasse o direito das mulheres de votar.

Cármen Lúcia afirmou ainda que é necessário permanecer vigilante para preservar direitos conquistados ao longo da história.

Na avaliação da ministra, ataques ao voto feminino podem representar uma demonstração de medo diante da incapacidade de convencer parte do eleitorado.

A participação feminina nas eleições brasileiras, consolidada há quase um século, tornou-se uma das principais conquistas da democracia nacional.

Hoje, as mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro. Por isso, a discussão que voltou a ganhar força nas redes sociais não envolve apenas uma questão histórica: trata-se de um debate sobre quem tem o direito de participar das decisões políticas e sobre qual modelo de sociedade deve prevalecer.

Entre provocações, sátiras e declarações assumidamente contrárias ao sufrágio feminino, o fenômeno mostra como discursos antes restritos a determinados nichos da internet podem alcançar grandes públicos e entrar no debate político nacional.

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