A história de Sonia Guimarães, primeira mulher negra a obter um doutorado em Física no Brasil e primeira professora negra do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), agora chega às páginas de um livro de memórias. Intitulada A Primeira, Não a Última, a obra reúne episódios da trajetória da cientista e professora, que ao longo de décadas precisou abrir caminhos em espaços onde a presença de mulheres negras ainda era rara.
Escrito por Sonia Guimarães em depoimento às jornalistas Jacqueline Lafloufa e Poliana Casemiro, o livro revisita momentos que, segundo a editora, nunca haviam sido contados em entrevistas. A narrativa começa em 1976, quando Sonia deixou São Paulo para estudar Física em São Carlos. Ela foi a primeira pessoa de sua família a ingressar em uma universidade e, durante a graduação, estava entre as poucas mulheres negras do campus.
A trajetória acadêmica avançou da graduação para o mestrado em Física Aplicada pela USP e, posteriormente, para o doutorado em materiais eletrônicos pela Universidade de Manchester, na Inglaterra. Em 1993, Sonia ingressou como professora no ITA, em São José dos Campos. Naquele momento, a instituição ainda não aceitava mulheres como alunas, o que tornava sua presença no corpo docente ainda mais simbólica.
Além do pioneirismo acadêmico, Sonia construiu uma carreira ligada à pesquisa científica e à tecnologia. Durante sua atuação no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), participou do desenvolvimento de uma tecnologia baseada em sensores infravermelhos voltada à área de defesa. Sua trajetória também foi reconhecida em 2023, quando recebeu da Força Aérea Brasileira a Medalha Santos Dumont de Honra ao Mérito pelos 30 anos de atuação no ITA.
No livro, porém, o foco não está apenas nas conquistas. A autora também aborda o racismo velado no ambiente acadêmico, o colorismo dentro da própria família e os obstáculos enfrentados por uma mulher negra em uma área historicamente marcada pela predominância masculina. A obra procura mostrar o custo de ser a primeira e, principalmente, a responsabilidade de transformar uma conquista individual em caminho para outras pessoas.
Essa preocupação acompanha Sonia há anos. Em entrevistas, a professora destaca a importância de aproximar jovens, especialmente meninas negras, das ciências exatas. No ITA, ela desenvolveu iniciativas para levar estudantes de escolas públicas aos laboratórios e mostrar que a universidade e a carreira científica também podem fazer parte de seus projetos de vida.
O próprio título do livro resume esse propósito. A Primeira, Não a Última não trata apenas do lugar que Sonia ocupou na história da ciência brasileira, mas da tentativa de garantir que outras mulheres negras não precisem esperar décadas para ocupar os mesmos espaços. Aos 70 anos, a cientista transforma suas memórias em um registro de uma trajetória que começou com uma estudante que ousou escolher a Física e continua com o desejo de deixar portas abertas para quem vier depois.
Sobre o livro
A Primeira, Não a Última tem 192 páginas, formato de 16 x 21 centímetros e reúne fotografias da trajetória de Sonia Guimarães. Publicado pela Bambual Editora, o livro está em pré-venda, com envio previsto a partir de 1º de outubro de 2026.
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