quinta-feira, 16 de julho de 2026
Brasil

Geração Z recorre a compras impulsivas como válvula de escape para ansiedade econômica

Comportamento conhecido como doom spending cresce entre jovens que enfrentam dificuldades para conquistar estabilidade financeira e são bombardeados por notícias negativas nas redes sociais

Geração Z recorre a compras impulsivas como válvula de escape para ansiedade econômica
Geração Z recorre a compras impulsivas como válvula de escape para ansiedade econômica AquiVale/Imagens

Comprar uma roupa que não precisa, parcelar uma viagem no cartão ou adicionar itens ao carrinho às duas da manhã depois de ler notícias ruins. Esse comportamento tem nome: doom spending, ou "gastos catastróficos", e está se tornando cada vez mais comum entre jovens da Geração Z.

O termo descreve compras feitas como mecanismo de alívio emocional diante de ansiedade econômica, marcadas por aquisições impulsivas como resposta ao estresse financeiro e à percepção negativa sobre o futuro. O cenário é agravado pela percepção de que o futuro econômico é sombrio, e a lógica passa a ser: se não consumir tudo o que pode hoje, pode não ter a chance de fazer isso amanhã.

No Brasil, o contexto é fértil para esse comportamento. A Geração Z é a segunda mais endividada do país, com 34,1% dos seus membros com a renda comprometida, segundo levantamento da Serasa. A entrada dessa geração no mercado de trabalho ocorre em um período de grande instabilidade econômica, com inflação alta, aumento do custo de vida e dificuldade de encontrar empregos bem remunerados, elementos que criam um cenário propício ao endividamento. Ao mesmo tempo, o Brasil está entre os países que mais passam tempo conectados, com média diária superior a três horas nas redes sociais, ambiente que potencializa comportamentos de comparação e impulsividade.

As redes sociais aparecem como fator de amplificação. A comparação constante com influenciadores, amigos e desconhecidos que exibem viagens, conquistas profissionais e bens de consumo cria a percepção de que é preciso acompanhar um ritmo de vida muitas vezes incompatível com a realidade econômica da maioria. Além disso, os jovens são bombardeados com anúncios personalizados, direcionados por algoritmos com base nos interesses pessoais de cada usuário, tornando esse tipo de marketing muito mais eficaz e persuasivo do que o rádio e a televisão já foram.

Os dados globais reforçam a tendência. Levantamento da Empower mostra que o gasto mensal via BNPL, o modelo "compre agora, pague depois", subiu 21% entre junho de 2024 e junho de 2025. Desse grupo, 39% já atrasaram pagamentos, sendo também o menos propenso a planejar as parcelas com antecedência. No Brasil, o mercado de parcelamento digital também cresce: o setor deve atingir US$ 4,66 bilhões em 2025 e expandir até 2030.

O ciclo, no entanto, costuma se voltar contra o consumidor. Especialistas em finanças pessoais relatam que clientes confessam que a fatura do cartão chega mais pesada do que o esperado, gerando mais ansiedade do que a compra aliviou. Na prática, quem passa por isso experimenta uma falsa sensação de controle diante de um mundo percebido como caótico.

Pesquisadores apontam que o impulso de compra nasce em áreas emocionais do cérebro, enquanto o pensamento racional, responsável pelo planejamento e autocontrole, precisa de mais tempo para processar as informações. Criar um intervalo entre o desejo e a ação reduz a intensidade emocional e permite que a razão participe da decisão. Para especialistas, identificar os gatilhos emocionais e desenvolver educação financeira desde cedo são os caminhos mais eficazes para interromper o ciclo antes que ele vire dívida.

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