terça-feira, 8 de setembro de 2026
saúde

20 minutos de exercício podem melhorar a memória após uma noite sem dormir, aponta estudo

Pesquisa com adultos jovens mostrou melhora no desempenho após 30 horas acordados, mas atividade física não substituiu os efeitos do sono sobre o cérebro

20 minutos de exercício podem melhorar a memória após uma noite sem dormir, aponta estudo
Foto: Reprodução

Uma sessão de 20 minutos de exercício aeróbico pode ajudar a preservar a capacidade de formar novas memórias após um período prolongado sem dormir, segundo um estudo publicado em agosto na revista científica PNAS.

A pesquisa acompanhou 53 adultos jovens e saudáveis que permaneceram 30 horas consecutivas acordados. Após esse período, os participantes foram divididos em três grupos: um fez 20 minutos de exercício aeróbico, outro dormiu por 90 minutos e o terceiro não passou por nenhuma das duas intervenções.

Na avaliação de memória realizada posteriormente, os participantes que se exercitaram tiveram desempenho 21% superior ao grupo que não recebeu nenhuma intervenção. Entre aqueles que dormiram por 90 minutos, a melhora foi de 23%. A diferença entre os grupos de exercício e sono não foi estatisticamente significativa.

Apesar do resultado semelhante, os pesquisadores identificaram que sono e exercício atuaram de maneiras diferentes no cérebro.

“O estudo não demonstra que exercício substitui sono”, afirma Andrea Bacelar, neurologista e vice-presidente da Academia Brasileira do Sono – Regional Rio de Janeiro.

Segundo a especialista, a atividade física melhorou o desempenho em uma tarefa de memória, mas não eliminou os efeitos da privação de sono, diferença observada nos registros de atividade cerebral.

O que acontece com o cérebro sem dormir

A necessidade de dormir aumenta conforme a pessoa permanece acordada por mais tempo. Esse processo, conhecido como pressão do sono, está relacionado ao aumento da sonolência e a alterações na atividade cerebral.

“O cérebro vai apresentando sinais de fadiga, com redução do estado de alerta e diminuição da capacidade de processamento das informações”, explica Helder Picarelli, neurocirurgião do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

De acordo com o especialista, a privação de sono está associada ao aumento de ondas lentas no eletroencefalograma e ao acúmulo de adenosina, substância envolvida na regulação do sono.

Com o avanço do período sem dormir, também podem surgir dificuldades para processar novas informações e formar memórias. A privação de sono pode ainda afetar a tomada de decisões, o julgamento e o tempo de reação.

Como o estudo foi realizado

Os 53 participantes permaneceram 30 horas acordados sob supervisão em laboratório. Depois, foram distribuídos aleatoriamente entre três grupos.

  • Exercício: 20 minutos de atividade em bicicleta, com intensidade equivalente a cerca de 80% da frequência cardíaca máxima;

  • Sono: 90 minutos de descanso;

  • Controle: 20 minutos sentados na bicicleta, sem realizar exercício.

Durante o experimento, os participantes observaram uma sequência de imagens enquanto a atividade cerebral era registrada por eletroencefalograma.

Três dias depois, eles receberam uma combinação de imagens novas e já apresentadas e precisaram identificar quais haviam visto anteriormente.

No grupo que não recebeu nenhuma intervenção, a taxa média de reconhecimento ficou em aproximadamente 46%. Entre os participantes que fizeram exercício ou dormiram, o índice chegou a cerca de 56% a 57%.

O teste avaliou principalmente a memória episódica, responsável por registrar acontecimentos associados a determinado contexto, incluindo informações sobre quando e onde uma experiência ocorreu.

Ela se diferencia da memória semântica, relacionada ao armazenamento de conhecimentos e fatos. Saber uma informação histórica, por exemplo, envolve memória semântica. Já lembrar onde estava quando recebeu determinada notícia é um exemplo de memória episódica.

Exercício não substitui o sono

Embora o exercício tenha produzido uma melhora semelhante à observada após 90 minutos de sono na tarefa de memória, os resultados não indicam que a atividade física possa substituir o descanso.

Os registros cerebrais mostraram que a pressão do sono permaneceu elevada mesmo após o exercício. O benefício observado, portanto, esteve relacionado ao desempenho específico da memória avaliada pelos pesquisadores, e não à reversão dos efeitos da privação de sono como um todo.

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