sexta-feira, 23 de outubro de 2026
meio ambiente

Queimadas e desmatamento fazem Amazônia emitir mais carbono do que absorve, aponta estudo

Estudo do Inpe publicado na revista Nature analisou 15 anos de dados e aponta a ação humana como principal responsável pelo desequilíbrio, mesmo em períodos sem seca extrema

Queimadas e desmatamento fazem Amazônia emitir mais carbono do que absorve, aponta estudo
Terra Indígena Paraná do Arauató, no Amazonas. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica

A Amazônia brasileira emite mais carbono do que consegue absorver, principalmente por causa das queimadas e do desmatamento. É o que aponta um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), publicado nesta quarta-feira (21) na revista científica Nature. A pesquisa analisou 15 anos de medições aéreas de dióxido de carbono (CO₂) e concluiu que a ação humana tem impacto maior sobre as emissões da floresta do que as mudanças climáticas.

Entre 2010 e 2024, a região emitiu, em média, 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano a mais do que absorveu. Em condições saudáveis, a vegetação retira o gás da atmosfera durante o crescimento e contribui para conter o aquecimento global.

Segundo os pesquisadores, o desmatamento reduz a quantidade de árvores capazes de absorver carbono, enquanto as queimadas liberam na atmosfera o carbono armazenado na vegetação. As secas e as temperaturas elevadas agravam o problema ao prejudicar o crescimento das plantas e diminuir a capacidade de absorção da floresta.

A pesquisa foi conduzida pela cientista Luciana Gatti, pesquisadora titular do Inpe que estuda há quase 40 anos o papel da Amazônia no ciclo global do carbono. Em declaração reproduzida pelo g1, ela destacou que a ação humana é a principal responsável pela degradação da floresta e defendeu medidas para conter a destruição ambiental.

Queimadas são principal ameaça

O estudo identificou o fogo como uma das principais fontes de emissão de carbono na Amazônia. As queimadas liberaram, em média, 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, volume superior ao saldo total de emissões da região.

Mesmo nos períodos de seca extrema, quando a área queimada foi 92% maior do que nos anos chuvosos, os pesquisadores associaram 98% do fogo à ação humana. O resultado indica que as condições climáticas, embora favoreçam a propagação das chamas, não explicam sozinhas a dimensão dos incêndios.

A comparação entre diferentes períodos também mostrou que as emissões podem aumentar mesmo quando as condições climáticas estão próximas da normalidade.

Entre 2019 e 2022, período marcado pelo avanço do desmatamento, a devastação chegou a uma média de 12.580 km² por ano. A área queimada aumentou 25%, e as emissões atingiram 1,58 bilhão de toneladas de CO₂ anuais.

Já nos anos de seca extrema, registrados em 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, a área queimada ultrapassou 105 mil km². As emissões chegaram a 1,80 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, o maior valor da série analisada.

Nos anos mais chuvosos, entre 2011 e 2014 e em 2017 e 2018, as emissões foram menores. Ainda assim, a pesquisa registrou uma média anual de 6.389 km² de desmatamento e 55 mil km² de vegetação queimada.

Desmatamento altera regime de chuvas

Além de liberar carbono, a destruição da floresta afeta o regime de chuvas e as temperaturas na própria Amazônia. Segundo o estudo, em 46 anos, a precipitação anual caiu 8% na região, chegando a uma redução de 20% no auge da estação seca. No mesmo período, a temperatura média aumentou 1,13 °C.

A degradação também preocupa por causa do papel da Amazônia na distribuição de umidade para outras regiões do Brasil. A floresta contribui para a formação de chuvas e para a regulação das temperaturas, de modo que sua destruição pode produzir consequências que vão além da região amazônica.

Para Luciana Gatti, o fogo se tornou uma ameaça central à floresta. A pesquisadora defende o reforço das medidas de prevenção e fiscalização para impedir que as queimadas continuem ampliando a degradação ambiental.

Incêndios em propriedades rurais

Outro levantamento do Inpe, realizado a pedido do g1, identificou que 79,1% dos 1.639 focos de incêndio registrados no Amazonas entre 1º e 15 de outubro estavam em propriedades rurais privadas cadastradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

O dado reforça os indícios de que a maioria dos incêndios esteja relacionada à ação humana. O uso do fogo para manejo do solo, como a limpeza de pastagens, depende de autorização do governo estadual. Além disso, uma proibição estadual ao uso do fogo estava em vigor desde 9 de setembro, mas os incêndios continuaram.

O presidente do Ibama, Jair Schmitt, afirmou ao g1 que, embora a seca favoreça a ocorrência e a propagação das chamas, a ação humana tem papel determinante no agravamento da situação no Amazonas.

Schmitt também mencionou a hipótese de que responsáveis por crimes ambientais aproveitem períodos de crise para ampliar as queimadas e dificultar a identificação dos autores.

Os resultados reforçam a importância de combater o desmatamento, prevenir incêndios e fortalecer a fiscalização ambiental para reduzir as emissões e preservar a capacidade da Amazônia de absorver carbono.

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