segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Ciência

Humanos usam drogas há pelo menos 25 mil anos, revela estudo com esqueletos

Pesquisa identificou vestígios de uma planta psicoativa em ossos encontrados em cavernas de Sulawesi, tornando esse o registro mais antigo de consumo de drogas por seres humanos

Humanos usam drogas há pelo menos 25 mil anos, revela estudo com esqueletos
Foto: Reprodução/G1

Muito antes das bebidas alcoólicas ou do cigarro, os seres humanos já recorriam a substâncias psicoativas para alterar o estado de espírito. Um estudo publicado semana passado na revista científica Science Advances encontrou a evidência mais antiga já registrada desse hábito: esqueletos com cerca de 25 mil anos, descobertos em cavernas da ilha de Sulawesi, na Indonésia, carregavam sinais de consumo de uma planta psicoativa.

O achado empurra a origem do uso de drogas por humanos quase 20 mil anos para trás, superando um registro anterior encontrado na Tailândia, de 3,5 mil anos.

A substância em questão é a noz de betel, fruto de palmeiras do gênero Areca. Pouco conhecida no Ocidente, ela é hoje a quarta droga mais consumida no mundo, atrás apenas do álcool, da cafeína e da nicotina, usada por cerca de 1 em cada 10 habitantes do planeta, principalmente na Ásia e no Pacífico.

A descoberta começou com um detalhe estranho nos dentes dos dois esqueletos analisados. Um deles viveu entre 25 mil e 16 mil anos atrás; o outro, mais recente, entre 7,6 mil e 6,3 mil anos, ligado à cultura toaleana, grupo de caçadores-coletores do sul da ilha.

Os dois apresentavam um desgaste dentário nunca antes descrito, sulcos arredondados e contínuos ao redor dos dentes, bem diferentes do desgaste raso provocado pela mastigação comum de alimentos. Em alguns casos, o desgaste chegou a expor a polpa dentária, região interna onde ficam nervos e vasos sanguíneos.

Intrigados, os pesquisadores reconstituíram o padrão das lesões e concluíram que elas eram causadas por um hábito repetitivo: segurar um objeto duro e esférico, de 10 a 20 milímetros, entre os dentes, girando-o na boca por longos períodos, como quem chupa uma semente em vez de mastigá-la. A hipótese levou a noz de betel para o centro da investigação.

Em laboratório, os cientistas confirmaram que a semente libera sua substância psicoativa mesmo sem ser mastigada. Depois, encontraram arecolina, o composto ativo da noz, nos tecidos dos esqueletos. Um detalhe reforçou a hipótese de que a semente era chupada em sua forma mais bruta: os dentes não tinham a mancha avermelhada típica de quem mastiga a noz de betel com cal, prática comum atualmente, nem apresentavam os compostos químicos que surgem apenas quando a semente é processada dessa forma.

A arecolina age sobre receptores do sistema nervoso ligados à acetilcolina, substância envolvida em funções como salivação, atenção e memória. No consumo tradicional da noz de betel, isso provoca sensação de alerta, leve euforia e mais disposição para o esforço físico, efeitos que guardam alguma semelhança com os da cafeína.

Os pesquisadores acreditam que o hábito pode ter se mantido por outros motivos além do estímulo. A arecolina tem efeito analgésico, o que pode ter ajudado a aliviar dores de dente, e o aumento da salivação favorece a digestão de alimentos ricos em amido, como palmeiras selvagens, comuns na dieta desses grupos. Ainda assim, o desgaste severo encontrado nos esqueletos sugere que os efeitos colaterais acabaram superando os benefícios.

Para os cientistas, isso pode indicar um ciclo de dependência: a semente aliviava a dor, mas o próprio hábito de consumi-la piorava progressivamente a saúde bucal de quem a usava.

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