A chamada geração “nem-nem”, formada por jovens que não estudam nem trabalham, continua sendo um desafio para o mercado de trabalho brasileiro. Embora o indicador tenha apresentado melhora, especialistas em Recursos Humanos e estudos sobre juventude apontam que a dificuldade de inserção profissional pode comprometer a formação de uma carreira e ampliar a distância entre os jovens e as oportunidades de emprego.
Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o cenário vem melhorando. Em 2025, o Brasil tinha 46,6 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos, e 17,5% não trabalhavam, não estudavam nem frequentavam cursos de qualificação. O percentual representa uma queda em relação a 2024, quando o índice era de 18,5%.
Mesmo com a redução, o número ainda representa milhões de jovens que estão fora de duas das principais portas de entrada para o desenvolvimento profissional: a educação e o mercado de trabalho.
Por que o cenário preocupa o RH?
Para o setor de Recursos Humanos, um dos principais desafios está em aproximar esses jovens das empresas e, ao mesmo tempo, oferecer condições para que eles desenvolvam as competências exigidas pelo mercado.
A questão não se resume à falta de interesse em trabalhar ou estudar. Pesquisas do Ipea mostram que os jovens que estão fora dessas atividades formam um grupo marcado por diferentes situações de vulnerabilidade e que fatores sociais e econômicos influenciam suas decisões entre estudar, trabalhar ou permanecer fora das duas atividades.
Outro ponto destacado no debate sobre juventude e trabalho é a importância da primeira experiência profissional. Sem oportunidades de estágio, aprendizagem ou emprego inicial, o jovem pode encontrar mais dificuldades para adquirir experiência e desenvolver competências que posteriormente são cobradas nos processos seletivos.
É justamente nesse ponto que especialistas defendem uma participação maior das empresas.
Aprendizagem pode ser uma porta de entrada
Uma das alternativas existentes no país é o programa de Aprendizagem Profissional, política pública voltada à inclusão de adolescentes e jovens no mercado de trabalho. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a iniciativa atende pessoas de 14 a 24 anos e também pessoas com deficiência, sem limite de idade. Além de proporcionar experiência profissional, o programa permite que as empresas formem mão de obra qualificada.
A estratégia vem crescendo. De acordo com o governo federal, o número de jovens aprendizes chegou a 646,4 mil contratos ativos em março de 2025, o melhor resultado registrado até então.
No primeiro semestre daquele ano, o governo também informou que mais de 656 mil jovens estavam inseridos no mercado por meio da aprendizagem profissional.
Para o mercado, iniciativas desse tipo podem ajudar a diminuir uma das principais barreiras enfrentadas por quem procura o primeiro emprego: a exigência de experiência profissional para ocupar uma vaga de entrada.
Empresas também precisam mudar a forma de contratar
A discussão sobre jovens e mercado de trabalho também passa pela maneira como as empresas enxergam as diferentes gerações.
A ABRH Brasil, entidade voltada à área de Recursos Humanos, destacou em discussões relacionadas ao CONARH 2025 a necessidade de evitar que gerações sejam tratadas como grupos homogêneos. A entidade aponta estratégias como mentoria reversa, na qual jovens contribuem com conhecimentos digitais enquanto profissionais mais experientes compartilham conhecimentos estratégicos.
Nesse sentido, especialistas defendem que o desafio não deve ser colocado exclusivamente sobre os jovens. Empresas também podem contribuir oferecendo programas de aprendizagem, estágio, capacitação interna, mentoria e processos seletivos que valorizem potencial, e não apenas experiência anterior.
Um problema que vai além do emprego
A situação da geração “nem-nem” também está relacionada à educação e às condições socioeconômicas. Por isso, o enfrentamento do problema exige ações conjuntas entre poder público, instituições de ensino e empresas.
O próprio Ministério do Trabalho considera a aprendizagem profissional uma política de inclusão produtiva e de formação de mão de obra.
Apesar da queda registrada pelo IBGE, o cenário ainda exige atenção. A redução do percentual de jovens que não estudam, não trabalham nem se qualificam é um sinal positivo, mas o desafio permanece: garantir que mais jovens consigam transformar a entrada no mercado de trabalho em uma trajetória profissional sustentável.
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