segunda-feira, 13 de julho de 2026
Dia Mundial do Rock

Conheça uma das histórias mais inacreditáveis do mundo da música

John Fogerty escreveu um clássico do Creedence Clearwater Revival. Quinze anos depois, foi parar na Justiça acusado de copiar... a própria música. O caso entrou para a história do rock e ainda criou um importante precedente jurídico nos Estados Unidos.

Conheça uma das histórias mais inacreditáveis do mundo da música
Conheça uma das histórias mais inacreditáveis do mundo da música David Fenton/Getty Images

Imagine compor uma música, transformá-la em um dos maiores clássicos da história do rock e, anos depois, ser processado porque outra composição sua supostamente era parecida demais com aquela primeira. Parece impossível, mas foi exatamente isso que aconteceu com John Fogerty, líder do Creedence Clearwater Revival (CCR), em um dos episódios mais curiosos da indústria musical.

Para entender essa história, é preciso voltar ao fim da década de 1960. Formado oficialmente em 1967, na Califórnia, o Creedence Clearwater Revival rapidamente se transformou em uma das maiores bandas do planeta. Em poucos anos, o grupo emplacou sucessos como Proud Mary, Bad Moon Rising, Fortunate Son, Green River, Down on the Corner, Run Through the Jungle e, mais tarde, Have You Ever Seen the Rain. Entre 1969 e 1970, viveu um dos períodos mais impressionantes da história do rock, colocando 14 músicas no Top 10 da Billboard em apenas quatro anos.

Por trás do sucesso estava John Fogerty. Além de vocalista, ele era o principal compositor, guitarrista e líder criativo da banda. Era dele a responsabilidade por praticamente todos os grandes sucessos do Creedence. Mas, enquanto a carreira disparava, os bastidores eram marcados por conflitos cada vez maiores.

As tensões giravam principalmente em torno do controle criativo exercido por Fogerty. Seu irmão mais velho, Tom Fogerty, passou a demonstrar insatisfação com a falta de espaço dentro da banda e decidiu sair do grupo em 1971. Embora muitos fãs considerem que o Creedence tenha "acabado" naquele momento, a banda continuou como um trio formado por John Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford. Apenas em outubro de 1972 veio o anúncio oficial do fim do CCR.

O término da banda, porém, estava longe de encerrar os problemas de John Fogerty.

Durante os anos de sucesso, o Creedence havia assinado contratos considerados extremamente desfavoráveis com a Fantasy Records. A gravadora, comandada por Saul Zaentz, controlava os direitos de publicação de grande parte das músicas escritas por Fogerty para o CCR. Isso significava que, embora fosse o autor das composições, ele já não controlava os direitos sobre elas.

A relação entre Fogerty e Zaentz se deteriorou rapidamente. O músico chegou a escrever uma canção ironizando o empresário, inicialmente chamada Zanz Kant Danz. Zaentz respondeu com uma ação judicial, obrigando Fogerty a alterar o nome da música para Vanz Kant Danz. Era apenas o começo de uma longa batalha entre os dois.

Em 1985, após anos afastado do sucesso comercial, John Fogerty lançou o álbum Centerfield. O disco marcou seu retorno às paradas graças ao single The Old Man Down the Road, que rapidamente conquistou o público.

Foi então que aconteceu algo inacreditável.

A Fantasy Records entrou na Justiça alegando que The Old Man Down the Road era parecida demais com Run Through the Jungle, música lançada pelo Creedence em 1970. Como a gravadora detinha os direitos da obra antiga, sustentava que a nova canção infringia seu copyright.

O detalhe que transformou o caso em uma lenda da indústria musical é que as duas músicas haviam sido escritas pelo próprio John Fogerty.

O processo foi levado a julgamento, e Fogerty decidiu fazer algo incomum. Durante seu depoimento, levou uma guitarra ao tribunal e demonstrou ao júri as diferenças entre as duas composições. Tocando trechos das músicas e explicando sua estrutura, mostrou que, embora compartilhassem elementos característicos de seu estilo como compositor, eram obras distintas. Após duas horas de deliberação, o júri decidiu a favor do músico, rejeitando a acusação de violação de direitos autorais.

A vitória, no entanto, não encerrou a disputa.

Depois de vencer o processo, John Fogerty decidiu pedir que a Fantasy Records também pagasse os milhões de dólares que ele havia gasto com advogados durante a batalha judicial. O pedido foi negado nas primeiras instâncias, mas o músico recorreu até a Suprema Corte dos Estados Unidos.

Em 1994, a Corte decidiu a favor de Fogerty e estabeleceu um importante precedente: artistas que vencem processos de direitos autorais também podem ter direito ao reembolso das despesas com advogados, e não apenas as empresas que detêm os direitos das obras. A decisão passou a servir de referência para outros casos semelhantes na Justiça americana.

Décadas depois, o episódio continua sendo lembrado como um dos casos mais curiosos da história do rock. Mais do que uma disputa entre um artista e sua antiga gravadora, ele expôs como contratos assinados no início da carreira podem acompanhar um músico por décadas.

John Fogerty não entrou para a história apenas por compor alguns dos maiores clássicos do Creedence Clearwater Revival. Entrou também por protagonizar um processo tão improvável que parece roteiro de cinema: o de um compositor que precisou convencer um tribunal de que não havia copiado... a si mesmo.

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