Uma reportagem publicada pelo UOL nesta segunda-feira (15) trouxe uma das justificativas para a pouca utilização de Endrick na Seleção Brasileira. Segundo a matéria, Carlo Ancelotti entende que o atacante ainda precisa evoluir em aspectos táticos e no cumprimento de determinadas funções sem a bola, motivo pelo qual vem sendo preterido em alguns momentos.
A explicação, porém, levanta uma questão que incomoda boa parte dos torcedores brasileiros: por que apenas o Brasil parece exigir uma longa fase de maturação dos jovens talentos antes de lhes dar protagonismo?
A França é um dos principais exemplos do movimento contrário. Désiré Doué, de 20 anos, já aparece como uma das principais armas ofensivas da seleção francesa mesmo em uma equipe repleta de estrelas. Warren Zaïre-Emery, também com 20 anos, faz parte da renovação do meio-campo dos Bleus e recebe oportunidades frequentes. Ambos chegam respaldados pelo desempenho no PSG, mas o ponto principal é que a França não hesita em colocá-los em campo em jogos importantes.
Na Espanha, o cenário é ainda mais evidente. Lamine Yamal, aos 18 anos, já é protagonista da seleção espanhola e um dos jogadores mais decisivos do futebol mundial. Gavi, com apenas 21 anos, continua sendo uma peça importante quando está disponível, enquanto Pau Cubarsí, aos 19, já conquistou espaço na defesa da seleção principal. Nenhum deles precisou esperar anos para ganhar confiança; a Espanha entendeu que talento e capacidade podem pesar mais do que idade.
A Inglaterra também acelera o processo de seus talentos. Kobbie Mainoo ganhou espaço rapidamente na seleção inglesa após suas atuações pelo Manchester United, enquanto jovens como Nico O'Reilly mostram que a renovação inglesa não pretende esperar muito para acontecer.
Portugal segue caminho semelhante. João Neves, de apenas 21 anos, transformou-se em titular absoluto da seleção portuguesa e em uma das referências do meio-campo da equipe. Apesar da pouca idade, já carrega responsabilidades normalmente reservadas a atletas mais experientes.
A Alemanha, que goleou Curaçao por 7 a 1 ontem (14), teve no meio-campo um de seus jovens pilares. Aleksandar Pavlovic, de 22 anos, que é tratado como peça importante da renovação alemã e demonstra a confiança depositada pela comissão técnica em atletas da nova geração.
Nem a atual campeã mundial foge dessa lógica. A Argentina vem dando espaço a Nico Paz, de 21 anos, tratado como uma das principais apostas para o futuro da Albiceleste. Mesmo cercado por jogadores experientes, o meia já recebe oportunidades importantes sob o comando de Lionel Scaloni.
O próprio Marrocos, adversário do Brasil na estreia, mostrou coragem para apostar na juventude. Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, foi titular e teve participação importante no meio-campo marroquino. O elenco ainda conta com jovens como Chemsdine Talbi e Ayoub Amraoui, ambos de 21 anos, reforçando uma tendência que se repete em diversas seleções.
O próprio Mundial de 2026 expõe uma realidade cada vez mais evidente no futebol moderno: os jogadores estão ficando prontos mais cedo. Graças à evolução da preparação física, da formação tática e da experiência acumulada em grandes clubes desde a adolescência, atletas de 18, 19 ou 20 anos chegam ao mais alto nível muito mais preparados do que em gerações anteriores.
Isso significa que eles não vão errar? Claro que não. Vão cometer erros, assim como jogadores experientes também cometem. A diferença é que, quando um jovem erra, muitas vezes o erro é tratado como prova de que ele ainda não está pronto. Quando um veterano erra, o equívoco costuma ser visto apenas como parte do jogo.
Talvez seja justamente esse o ponto. Se o erro é inevitável, faz mais sentido conviver com os erros de quem ainda tem margem para crescer do que insistir apenas na experiência como garantia de desempenho. O futebol atual mostra que talento, personalidade e capacidade de decisão não têm idade. E as principais seleções do mundo parecem ter entendido isso há algum tempo.
Enquanto França, Espanha, Portugal, Alemanha, Argentina e até Marrocos utilizam seus jovens como parte da solução, o Brasil continua tratando Endrick e Rayan como apostas para o futuro. A pergunta que fica é simples: se o resto do mundo já confia em seus jovens talentos, por que a Seleção Brasileira ainda parece tão receosa em confiar nos seus?
Comentários (0)
Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu Comentário
Seu e-mail e telefone não serão exibidos publicamente. Campos com * são obrigatórios.