“Professora, acho que esse aluno pode ter altas habilidades.”
A frase parece simples, mas pode ser o começo de algo muito importante. Quando uma escola percebe sinais de altas habilidades ou superdotação — AH/SD — dois erros são comuns: colocar um rótulo cedo demais ou simplesmente esperar que apareça um laudo. Nenhum dos dois caminhos ajuda o estudante. O primeiro passo deve ser mais simples: observar melhor. Em 2025, o Censo Escolar registrou 56.238 matrículas de estudantes com altas habilidades ou superdotação no Brasil, contra 44.171 em 2024. E São José dos Campos chama atenção.
Uma análise dos microdados do Censo Escolar 2025 identificou 824 matrículas de estudantes com AH/SD no município, colocando São José na 8ª posição nacional e na 3ª posição do Sudeste em número de registros. Isso não significa que existam proporcionalmente mais pessoas superdotadas aqui do que nas cidades vizinhas. Pode significar também que algumas redes conseguem perceber, identificar e registrar melhor esses estudantes. E essa é uma pergunta importante para toda a região:
Quantas crianças e adolescentes podem estar passando pelas escolas sem que suas habilidades sejam percebidas?
Nem todo estudante com altas habilidades tira dez Esse talvez seja um dos maiores equívocos. Altas habilidades não significam necessariamente ser o melhor aluno da sala ou ter notas altas em todas as matérias. Um estudante pode demonstrar grande capacidade em Matemática e ter dificuldades para escrever.
Outro pode ter criatividade incomum, liderança, talento artístico ou enorme facilidade para aprender determinados assuntos. Por isso, em vez de perguntar imediatamente “Ele é superdotado?”, a escola pode começar perguntando: “O que estamos observando nesse estudante?”
Ele aprende determinados conteúdos muito rapidamente? Faz perguntas diferentes das demais crianças? Cria soluções pouco comuns? Demonstra interesse intenso por algum assunto? Fica desmotivado quando as tarefas são muito repetitivas? Esses sinais não fecham um diagnóstico. Mas são pistas importantes.
Do “eu acho” para o “eu observei”
O professor ocupa uma posição privilegiada porque acompanha o estudante diariamente em situações reais de aprendizagem.
Mas ele não precisa fazer isso sozinho. A família também conhece comportamentos que não aparecem dentro da sala de aula. Outros professores, a coordenação, o AEE e o próprio estudante podem contribuir. A ideia é juntar diferentes olhares.
Em vez de dizer “Ele é muito inteligente”, é melhor registrar: “Aprendeu este conteúdo rapidamente, encontrou três soluções diferentes para o problema e demonstrou interesse em aprofundar o assunto.”
Essa diferença parece pequena, mas muda tudo. A escola sai da impressão e começa a trabalhar com evidências. E o que a escola deve fazer? A legislação educacional atual dá importância ao chamado Estudo de Caso. Ele ajuda a escola a organizar as informações sobre o estudante, compreender suas potencialidades, dificuldades, barreiras e necessidades educacionais.
Seu resultado pode orientar documentos como o PAEE e o PEI. E existe um ponto muito importante para as famílias:
A escola não precisa esperar um diagnóstico médico para começar seu trabalho pedagógico.
Se existem indicadores educacionais, a observação e o planejamento podem começar.
NA PRÁTICA, A ESCOLA PODE COMEÇAR ASSIM:
1. Observar e registrar situações concretas.
2. Conversar com outros professores, família e estudante.
3. Reunir trabalhos, produções, projetos e histórico escolar.
4. Acionar a equipe pedagógica e o AEE para organizar o Estudo de Caso.
5. Oferecer novos desafios e acompanhar como o estudante responde.
Investigar não significa deixar a criança esperando Enquanto a escola observa e reúne informações, o estudante não precisa continuar meses fazendo apenas atividades que já domina. Pode receber problemas mais complexos, projetos, pesquisa, aprofundamento de conteúdos e outras oportunidades que permitam demonstrar seu potencial. Às vezes, aquele aluno que parecia “desinteressado” simplesmente estava pouco desafiado.
E no Vale do Paraíba?
Ainda estamos trabalhando para ampliar esse retrato regional. Na atualização desta apuração, a página oficial dos Microdados do Censo Escolar 2025 permanecia disponível, mas o arquivo necessário para a extração completa dos municípios continuava apresentando indisponibilidade técnica.
Por isso, por rigor editorial, não vamos publicar números municipais que ainda não pudemos confirmar diretamente. Assim que a base oficial voltar a responder, o levantamento poderá ser ampliado para o Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira.
Afinal, talvez a pergunta mais importante não seja: “Como provar que este aluno é superdotado?” “Do que este estudante precisa para continuar aprendendo e desenvolver todo o seu potencial?”
Quando a escola começa por essa pergunta, a identificação deixa de ser apenas um rótulo. E passa a abrir oportunidades.
NO PRÓXIMO EPISÓDIO
É superdotação ou apenas alto desempenho? Tirar boas notas, aprender rápido ou ser o melhor aluno da turma significa necessariamente ter altas habilidades?
Prof. Carlos Lima Neuropsicopedagogo
Especialista em Educação Especial e Direito Educacional Diretor da EDUCATECH Gestão Educacional e Tecnológica Fundador do Observatório Nacional do Atendimento Educacional Hospitalar e Domiciliar
Comentários (0)
Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu Comentário
Seu e-mail e telefone não serão exibidos publicamente. Campos com * são obrigatórios.