domingo, 27 de setembro de 2026
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Pessoas estão criando avatares de IA para ganhar dinheiro nas redes sociais

Personagens que não existem no mundo real acumulam seguidores, divulgam produtos e podem gerar renda com vídeos, anúncios e conteúdos automatizados

Pessoas estão criando avatares de IA para ganhar dinheiro nas redes sociais
Foto: Reprodução/ Tiktok

Avatares criados por inteligência artificial estão sendo usados para ganhar dinheiro nas redes sociais. Mesmo sem existirem no mundo real, personagens com aparência humana conseguem acumular milhares de seguidores e são utilizados em vídeos, anúncios, transmissões e publicações que podem gerar receita.

O dinheiro pode vir de diferentes fontes. Entre elas estão a monetização de vídeos, comissões pela venda de produtos, divulgação de conteúdos digitais e até a negociação de perfis que já possuem uma grande audiência.

A diferença para os tradicionais chatbots está na forma como esses personagens são apresentados. Em vez de apenas responder perguntas, os avatares de IA simulam pessoas reais, com rosto, voz, personalidade e interações com o público.

Segundo especialistas ouvidos pela DW Brasil, a estratégia transforma a atenção dos usuários em uma oportunidade comercial. Com ferramentas de inteligência artificial e automação cada vez mais acessíveis, um mesmo roteiro pode ser adaptado para diferentes personagens, idiomas e públicos, permitindo a produção de dezenas de vídeos em pouco tempo.

Conteúdo feito em escala

Os avatares aparecem em diferentes tipos de conteúdo, desde entretenimento e histórias até vídeos sobre saúde, relacionamentos e outros temas que despertam grande interesse do público.

Um dos problemas apontados por pesquisadores é que alguns desses personagens são utilizados para divulgar informações falsas ou produtos sem comprovação. Na área da saúde, por exemplo, há casos em que conteúdos produzidos por IA apresentam supostos tratamentos ou recomendações que podem levar usuários a abandonar orientações médicas convencionais.

Luã Cruz, diretor de litigância da organização Ctrl Z, afirma que muitos desses conteúdos exploram sentimentos como medo, curiosidade e esperança para aumentar o alcance das publicações.

A produção também pode ser feita em grande escala. Um único roteiro pode ser traduzido para outros idiomas e interpretado por diferentes avatares, permitindo que o mesmo conteúdo alcance públicos de vários países.

No YouTube, esse modelo também pode ser utilizado para produzir grandes quantidades de vídeos e buscar os requisitos necessários para monetização. Depois de alcançar uma audiência, o perfil pode mudar de tema, passar a divulgar produtos digitais ou até ser negociado.

Avatares estão cada vez mais realistas

A evolução das ferramentas de IA tornou mais difícil identificar alguns conteúdos artificiais. Falhas em mãos, movimentos, vozes e expressões, que antes denunciavam com facilidade um vídeo produzido por computador, estão menos evidentes.

Ainda existem sinais que podem indicar a origem artificial do material, como movimentos pouco naturais, problemas na sincronização entre voz e boca, textos distorcidos no cenário ou imagens excessivamente perfeitas. No entanto, especialistas afirmam que essas características podem passar despercebidas principalmente quando o conteúdo é visto rapidamente pelo celular.

Para Fernando Ferreira, pesquisador do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em inteligência artificial, a responsabilidade por identificar esses conteúdos não deve ficar somente com o usuário.

Ele defende que as plataformas adotem mecanismos mais claros para informar quando um conteúdo foi produzido ou alterado por inteligência artificial, principalmente quando há monetização envolvida.

Onde está o risco?

O problema não está necessariamente na criação de personagens virtuais. Avatares de IA podem ser utilizados para entretenimento, publicidade e outras atividades legítimas.

A preocupação aumenta quando esses personagens são apresentados como pessoas reais ou são usados para enganar o público e obter alguma vantagem financeira.

A advogada e especialista em cibersegurança Gisele Kauer explica que o uso de inteligência artificial não elimina a responsabilidade de quem pratica um crime. Dependendo da situação, um conteúdo produzido por um avatar pode estar relacionado a crimes já previstos na legislação brasileira, como estelionato, fraude, falsidade ideológica ou exercício ilegal da medicina.

Além das questões financeiras e jurídicas, pesquisadores também chamam atenção para os efeitos desse tipo de conteúdo sobre a percepção da realidade.

Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e pesquisador de intimidade artificial, aponta que personagens virtuais podem criar padrões de aparência e relacionamentos que não correspondem à realidade. Para ele, isso amplia um problema que já existe nas redes sociais, onde imagens e vidas são frequentemente apresentadas de forma idealizada.

O que dizem as plataformas

O YouTube afirma que conteúdos produzidos por inteligência artificial também precisam seguir as regras da plataforma. A empresa diz exigir que criadores informem quando utilizam mídia sintética ou alterada de maneira realista e afirma usar tecnologia e análise humana para identificar conteúdos que deveriam ter sido sinalizados.

A plataforma também proíbe conteúdos com determinadas informações médicas incorretas que possam causar danos à saúde. Segundo o YouTube, violações podem levar à remoção dos vídeos e, em casos recorrentes, à suspensão do canal do programa de monetização.

O TikTok também afirma exigir a identificação de conteúdos gerados por IA e proibir materiais que possam induzir o público ao erro. A empresa diz que perfis que violarem as regras podem sofrer punições, inclusive perder o acesso ao programa de recompensas.

A Meta, responsável pelo Instagram e pelo Facebook, informou que não iria comentar.

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