Uma proteína encontrada no inhame apresentou potencial para combater células de câncer de mama e glioblastoma em testes realizados em laboratório. Chamada de tarina, a substância é estudada há mais de 15 anos por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Estadual do Maranhão.
Os pesquisadores desenvolveram uma formulação que utiliza nanotecnologia para encapsular a tarina em nanolipossomos, estruturas que ajudam a transportar a substância de forma mais controlada. Nos experimentos, a formulação reduziu a proliferação das células tumorais e ativou mecanismos associados à morte celular.
A pesquisa busca desenvolver alternativas mais seletivas aos tratamentos convencionais contra o câncer, que podem também atingir células saudáveis e provocar efeitos adversos.
Como a proteína age?
A tarina é uma proteína classificada como lectina vegetal e está presente no cormo do taro, parte subterrânea da planta conhecida popularmente como inhame. Estudos anteriores já haviam apontado propriedades antitumorais e imunomoduladoras da substância.
Nos testes, a nanoformulação foi aplicada a células de câncer de mama e de glioblastoma, um dos tipos mais agressivos de tumor cerebral. Além de interromper a proliferação, a substância ativou processos de morte celular, como apoptose e autofagia, e reduziu a capacidade de migração das células, um dos fatores relacionados à formação de metástases.
Os pesquisadores também observaram que os efeitos aumentaram conforme o tempo de exposição. Após 48 horas, foram identificadas alterações em proteínas relacionadas à morte celular, proliferação e migração.
Desafio para tratar tumores cerebrais
No caso do glioblastoma, um dos principais desafios é fazer com que o tratamento atravesse a barreira hematoencefálica, estrutura que controla a passagem de substâncias do sangue para o cérebro.
Em um modelo desenvolvido em laboratório com células humanas, cerca de 20% da nanoformulação conseguiu atravessar essa barreira após 180 minutos. O resultado indica uma possibilidade de avanço, mas os pesquisadores ainda buscam formas de aumentar a quantidade da substância que chega ao tumor.
A equipe também analisou mais de 2 mil proteínas presentes nas células de câncer de mama após o tratamento. A análise ajudou a identificar alterações relacionadas à resposta ao estresse, à proliferação, à migração e aos mecanismos de morte celular.
Estudo ainda está em fase pré-clínica
Apesar dos resultados, a tarina ainda não é um tratamento contra o câncer. Os experimentos foram realizados principalmente em culturas de células, e são necessárias outras etapas para avaliar a eficácia e a segurança da formulação antes de qualquer eventual teste clínico.
Os próximos estudos devem utilizar esferoides, modelos tridimensionais que simulam características dos tumores, além de investigar com mais detalhes o potencial imunomodulador da substância.
Pesquisas anteriores também indicaram que a tarina, em sua forma livre, ajudou a reduzir alguns efeitos provocados por quimioterápicos em camundongos imunossuprimidos. A hipótese dos pesquisadores é que, no futuro, a substância possa contribuir tanto para o combate ao tumor quanto para a redução de efeitos adversos de determinados tratamentos.
Os estudos envolvem pesquisadores e estudantes da UFRJ, Universidade Estadual do Maranhão, Universidade Federal Fluminense, Fiocruz e University of Michigan, com financiamento de instituições como Faperj e CNPq.
Importante: os resultados não significam que comer inhame trate ou previna o câncer. Os efeitos observados nos estudos estão relacionados à tarina isolada e à formulação desenvolvida em laboratório.
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