Pequenos dispositivos de rastreamento, conhecidos popularmente como "tags", estão sendo utilizados de forma clandestina para monitorar a rotina de mulheres em São Paulo. Escondidos em bolsas, mochilas, veículos, calçados e até em objetos de crianças, os aparelhos permitem acompanhar deslocamentos em tempo real sem que a vítima tenha conhecimento, transformando uma tecnologia criada para localizar pertences em instrumento de perseguição.
O aumento de relatos envolvendo esse tipo de monitoramento tem preocupado autoridades e especialistas em violência contra a mulher. Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP), a prática pode caracterizar o crime de perseguição, conhecido como stalking, previsto no artigo 147-A do Código Penal.
Os dispositivos, que podem ser encontrados por menos de R$ 100, funcionam por meio de conexão com smartphones e permitem acompanhar a localização do objeto onde foram escondidos. Em muitos casos, eles são colocados discretamente em veículos, mochilas ou pertences utilizados pelos filhos das vítimas, dificultando sua identificação.
Casos têm chamado atenção das autoridades
Investigadores relatam que o uso da tecnologia para controlar e vigiar ex-companheiras tem se tornado cada vez mais frequente nas ocorrências registradas nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs). Embora ainda não exista um levantamento específico sobre o uso desses equipamentos, os casos costumam ser registrados como crime de perseguição.
Dados da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, na região central da capital paulista, apontam aumento nas ocorrências de stalking no primeiro trimestre deste ano em comparação ao mesmo período de 2025, indicando uma crescente preocupação com esse tipo de violência.
Tecnologia amplia formas de violência
Especialistas destacam que a popularização de dispositivos de rastreamento tornou mais fácil a prática da vigilância constante sobre vítimas de violência doméstica e de relacionamentos abusivos.
Ao contrário da perseguição presencial, o monitoramento eletrônico permite que o agressor acompanhe os deslocamentos da vítima à distância, saiba onde ela mora, trabalha ou frequenta e, em alguns casos, apareça inesperadamente nos locais visitados, aumentando a sensação de medo e insegurança.
Além do crime de perseguição, dependendo das circunstâncias, a conduta também pode configurar violência psicológica contra a mulher, especialmente quando provoca sofrimento emocional, intimidação ou restrição da liberdade da vítima.
Como identificar um rastreador
Os sistemas operacionais mais recentes de smartphones passaram a oferecer notificações quando detectam uma tag desconhecida acompanhando o usuário por determinado período. Ao receber esse tipo de alerta, a orientação é verificar cuidadosamente bolsas, mochilas, roupas, veículos e outros objetos pessoais.
Caso o dispositivo seja localizado, especialistas recomendam não descartá-lo imediatamente. O ideal é preservar o equipamento como prova, registrar boletim de ocorrência e procurar uma Delegacia de Defesa da Mulher ou outra unidade policial para que o caso seja investigado.
Rede de proteção
A SSP informou que mantém uma estrutura voltada ao atendimento de mulheres vítimas de violência, com Delegacias de Defesa da Mulher distribuídas pelo estado, além de ferramentas como o aplicativo SP Mulher Segura e mecanismos de monitoramento de agressores que descumprem medidas protetivas. A orientação é que qualquer suspeita de perseguição seja comunicada às autoridades o mais rapidamente possível.
Especialistas reforçam que, embora as tags tenham sido desenvolvidas para facilitar a localização de objetos perdidos, seu uso sem consentimento para acompanhar os deslocamentos de outra pessoa representa uma grave invasão de privacidade e pode resultar em responsabilização criminal.
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