Os golpes financeiros com boletos nunca foram tão difíceis de detectar. Criminosos conseguem interceptar documentos PDF diretamente na caixa de entrada da vítima, alterar o código de barras e redirecionar o pagamento sem deixar qualquer rastro visual. O formato PDF, por permitir alterações após a geração do arquivo, é justamente o mais usado — e o mais perigoso.
A técnica mais recorrente é a invasão de contas de e-mail, conhecida como BEC, do inglês Business Email Compromise. Com acesso à caixa de um fornecedor ou contato, o golpista monitora negociações em andamento, aguarda o momento em que um boleto será emitido e substitui o documento por um falso dentro da própria conversa. Para quem recebe, tudo parece legítimo: o remetente é conhecido, o histórico está lá, e o boleto chega no momento esperado. Não há como perceber a fraude a olho nu.
Por trás desse esquema há uma cadeia criminosa bem estruturada, com divisão clara de funções: quem obtém os dados, quem adultera os documentos e quem opera para escapar dos sistemas de detecção. A esses recursos se soma a inteligência artificial. Vozes clonadas já atingem 93% de similaridade com o original a partir de apenas 30 segundos de áudio, e deepfakes de pessoas conhecidas são usados para pressionar vítimas a autorizar pagamentos com urgência.
"A sofisticação chegou a um nível em que a atenção sozinha não protege mais", resume Eduardo Lopes, CEO da Redbelt Security, consultoria responsável pelo levantamento.
O estudo da consultoria identificou 26 formas diferentes pelas quais criminosos podem tentar invadir sistemas ou aplicar golpes. Cinco deles respondem pela maior parte das ocorrências e poderiam ser bloqueados com medidas simples: autenticação forte nas contas, protocolos de e-mail configurados corretamente e controle sobre o que está exposto na nuvem.
Segundo a empresa, essas ações já seriam suficientes para reduzir o volume de fraudes em até 50%, sem necessidade de investimentos pesados em tecnologia.
Para quem quer se proteger agora, o caminho mais seguro é ativar o DDA, Débito Direto Autorizado, disponível no aplicativo do banco. Sem boleto no meio do caminho, não há documento para interceptar. Três hábitos reforçam a proteção: nunca buscar segunda via de boleto pelo Google, pois sites falsos aparecem entre os primeiros resultados; conferir o CNPJ do beneficiário antes de confirmar qualquer pagamento, informação que os aplicativos dos bancos exibem antes de processar a transação; e tratar qualquer pressão por urgência como sinal de alerta.
Criminosos criam pressa justamente para impedir que a vítima verifique os dados.
O impacto financeiro é bilionário. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), as fraudes financeiras causaram prejuízo de R$ 10,1 bilhões no Brasil em 2024, alta de 17% sobre o ano anterior. No primeiro semestre de 2025, as tentativas cresceram 56% em relação ao mesmo período de 2024. E o problema vai além do valor de cada boleto adulterado: os recursos obtidos financiam a infraestrutura usada em ataques ainda mais sofisticados, alimentando um ciclo que se autofinancia.
No plano institucional, a Polícia Federal opera a Plataforma Tentáculos, que conecta bancos e fintechs para cruzar dados de fraudes. A iniciativa é um avanço real, mas ainda insuficiente diante da velocidade de adaptação dos criminosos.
O próximo passo, segundo especialistas, é criar incentivos concretos para que empresas e cidadãos reportem fraudes de forma padronizada, com dados que possam ser cruzados em tempo real.
Comentários (0)
Nenhum comentário publicado ainda. Seja o primeiro a comentar!
Deixe seu Comentário
Seu e-mail e telefone não serão exibidos publicamente. Campos com * são obrigatórios.