Enquanto três em cada dez municípios brasileiros não possuem plano de contingência para eventos extremos, Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo, investe em tecnologia e capacitação para antecipar riscos de desastres climáticos. O município conta com um Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), que reúne informações meteorológicas e territoriais para auxiliar a Defesa Civil na prevenção de ocorrências como enchentes e deslizamentos.
O cenário nacional foi apontado por um estudo divulgado pela Agência FAPESP e publicado na revista Pesquisa FAPESP, que chama a atenção para as dificuldades de preparação das cidades brasileiras diante de eventos extremos. A falta de planejamento pode comprometer a capacidade de resposta do poder público em situações de emergência.
Em Ubatuba, o centro foi inaugurado em maio de 2025 e utiliza o Geopixel Monitor, plataforma desenvolvida pela empresa Geopixel, de São José dos Campos. O sistema integra informações de previsões meteorológicas, imagens de satélite, radares e pluviômetros, cruzando os dados com características do território e áreas consideradas de risco.
A ferramenta permite acompanhar mudanças nas condições climáticas e identificar situações que exigem atenção, oferecendo subsídios para decisões da Defesa Civil e de outros setores da administração municipal.
A estrutura é especialmente relevante para Ubatuba, que tem áreas de encosta e registra volumes elevados de chuva, condições que aumentam a preocupação com deslizamentos, alagamentos e outros impactos de eventos meteorológicos extremos.
Capacitação e atuação integrada
Além do monitoramento, o município investe na preparação de profissionais para interpretar os dados e utilizá-los no planejamento de ações. Em agosto de 2026, a Defesa Civil de Ubatuba, em parceria com a Geopixel, promoveu uma capacitação sobre meteorologia e acompanhamento de eventos extremos.
O treinamento reuniu servidores municipais, integrantes de setores envolvidos no plano de contingência e representantes do setor náutico. Entre os temas abordados estavam fenômenos meteorológicos característicos do Litoral Norte, previsão do tempo e monitoramento de chuvas, tempestades, ventos e ressacas.
A proposta é integrar as informações técnicas à rotina dos órgãos públicos e melhorar a coordenação das equipes diante de situações de risco. A estrutura do CGE também busca favorecer a atuação conjunta de áreas como Obras, Assistência Social, Saúde e Segurança.
“Quando diferentes setores conhecem os dados, compreendem os alertas e sabem como utilizá-los, isso contribui com a capacidade de antecipar riscos e tomar decisões antes que uma ocorrência se agrave”, afirma Alexandre Napoli, diretor de Gestão da Defesa Civil de Ubatuba.
Tecnologia aplicada a diferentes realidades
Segundo João dos Reis, doutor em Sensoriamento Remoto e especialista em monitoramento de eventos ambientais extremos da Geopixel, a integração de dados permite transformar informações meteorológicas e territoriais em ferramentas de apoio à gestão pública.
“Para gestores públicos, ganhar minutos, ou às vezes horas, em antecipação de alertas significa a diferença entre prevenir danos e reagir a emergências”, afirma.
A plataforma também é utilizada em outros municípios, com configurações adaptadas às características locais. Em Pouso Alegre (MG), o sistema acompanha sub-bacias hidrográficas e condições que favorecem inundações. Em São Carlos (SP), monitora fatores associados ao risco de incêndios durante períodos de estiagem.
A experiência de Ubatuba evidencia como o monitoramento pode integrar as estratégias municipais de prevenção. A efetividade dessas iniciativas, porém, também depende de planejamento, protocolos de atuação e equipes preparadas para transformar alertas em medidas concretas.
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