O Vale do Paraíba pode enfrentar mais períodos de calor intenso e chuvas concentradas nos próximos meses com o avanço do El Niño, segundo o pesquisador Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O fenômeno está em processo de intensificação e tem 95% de probabilidade de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, de acordo com o quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027.
O cenário deve se estender pela primavera e pelo verão. O boletim aponta temperaturas acima da média em grande parte do país e indica possibilidade de chuvas acima da média em áreas do Sudeste no trimestre de outubro a dezembro. As projeções, no entanto, são sazonais e não permitem prever com antecedência a ocorrência de eventos específicos em cada cidade.
Para o Sudeste, o principal ponto de atenção é a combinação entre temperaturas elevadas e uma distribuição mais irregular das chuvas. Segundo Gilvan Sampaio, a tendência é de precipitações mais concentradas em pancadas, especialmente durante a primavera e o verão.
“Durante agora a primavera e o verão nós tenhamos mais chuvas em forma de pancadas, ou seja, chuvas menos contínuas, aliadas às temperaturas mais altas”, afirmou o pesquisador.
Mais calor e risco de ondas de calor
O aumento das temperaturas também é apontado como um dos principais efeitos associados ao cenário atual. Segundo Sampaio, anos de El Niño podem apresentar maior frequência de ondas de calor, o que exige atenção durante os períodos de temperaturas elevadas.
O fenômeno ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, os efeitos não são iguais em todo o território. A previsão indica maior tendência de chuva no Sul, enquanto o centro-norte do país deve enfrentar condições mais secas. No Sudeste, o cenário é marcado por maior variabilidade das precipitações e temperaturas acima da média.
Pancadas podem ser intensas
Apesar da possibilidade de períodos mais secos entre as chuvas, o pesquisador alerta que as precipitações podem ocorrer de forma intensa em intervalos curtos. Isso aumenta a atenção para alagamentos, inundações e deslizamentos, principalmente em áreas vulneráveis.
“Nós teremos chuvas agora durante a primavera e o verão, mas em forma de pancadas. Chuvas intensas em forma de pancadas”, explicou Sampaio.
O pesquisador também destaca que o aquecimento provocado pelo El Niño ocorre em um contexto de aumento das temperaturas globais. A combinação pode favorecer condições para eventos extremos, embora não seja possível atribuir automaticamente um evento específico à atuação conjunta dos dois fatores.
El Niño pode estar entre os mais fortes
O aquecimento observado no Pacífico chama atenção pela intensidade. Segundo o INPE, as anomalias de temperatura da superfície do mar nas áreas de referência do Pacífico Central e Leste superaram 2°C no fim de setembro. O fenômeno foi confirmado em junho e deve persistir pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
De acordo com Sampaio, os valores registrados nos últimos meses já superaram, para o mesmo estágio de desenvolvimento, aqueles observados durante o El Niño de 1997-1998, que era considerado um dos eventos mais intensos já registrados. Por isso, o episódio atual pode ficar entre os mais fortes desde o início das medições modernas.
O quarto boletim do Painel El Niño é produzido conjuntamente por INPE, Inmet, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e Censipam. Os órgãos recomendam o acompanhamento contínuo das previsões meteorológicas e dos alertas oficiais diante da possibilidade de eventos extremos.
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