Fumar saiu de moda! (ou não?)
Cenário que levou milhares de brasileiros ao tabagismo e sua suposta queda no Brasil
Nos anos 80, as propagandas repetiam sempre o mesmo cenário: pessoas vivendo a vida, praticando algum esporte radical, em momentos elegantes e, é claro, fumando algum cigarro. Fumar era legal, descolado. Era sinônimo de status.
“Fumar era para quem tinha 15 anos, porque achava bonito aquele cigarro no meio dos dedos”, relembra Marcos Paulo Carvalho, de 49 anos, sobre os hábitos dos amigos na época. “Hoje pode parecer estranho falar que cigarro traz um charme, mas naquele tempo tinham uma visão diferente.”
Conforme aponta o Ministério da Saúde, no Brasil, a média é de 161.853 mortes anuais por tabagismo, o que representa 443 mortes por dia. Em 1970, existiam 25 milhões de fumantes no país. Dez anos depois, esse número já havia saltado para 33 milhões. Esse crescimento, representado pela Revista Brasileira de Cancerologia, foi de 32%.
Certamente, as propagandas e o cinema influenciaram muito nesses números. Os filmes retratavam – e ainda retratam – a sensualidade de quem anda com um cigarro entre os dedos. Alguns grandes nomes como Bette Davis, Audrey Hepburn e James Dean sempre eram flagrados fumando, incentivando toda uma geração.
Pai e filho, Álvaro Germano e Álvaro Germano Júnior, também foram vítimas da cultura do cigarro. “Quando eu tinha uns 16 anos, fumar era febre e todos os meus amigos fumavam […] Para não ficar sem jeito no meio deles, eu comecei a pegar o cigarro”, conta o artista Júnior, de 51 anos. Seu pai, atualmente com 78 anos, parou de fumar ao perceber os efeitos a longo prazo do tabagismo. “Precisei parar porque estava me fazendo mal, tanto para a saúde quanto para o bolso.”
De acordo com um estudo realizado pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer), os fumantes investem até 10% de sua renda mensal em cigarro. Parece ser contraditório, mas o preço atrativo do cigarro no Brasil eleva a dependência do usuário. Porém, esses números mensais nunca são levantados no papel por quem fuma. “Não foi fácil. Eu tentei várias vezes parar de fumar, de várias formas, e não conseguia. Teve um dia que eu pensei ‘a partir de amanhã eu nunca mais vou fumar’, e eu nunca mais tive vontade”, complementa Álvaro Germano. Seu filho também largou o vício.
Para quem cresceu no meio deste cenário e se tornou fumante, as consequências se estendem até hoje. “Hoje eu sofro de gota, rouquidão na voz, falta de ar, cansaço…”, enumera Renato Matos Ras, de 47 anos. O motorista conta que também começou a fumar na adolescência, escondido dos pais e por incentivo dos amigos. Ainda hoje, mantém o vício e não tem previsão para mudar os hábitos.
Não há dúvidas de que o cigarro faz mal à saúde – câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias, envelhecimento precoce, impotência sexual, menopausa precoce, osteoporose, catarata… Mas, mesmo assim, o hábito seguiu em alta até a década de 2010, quando teve uma queda brusca.
O número de ex-usuários de tabaco é cada vez maior. De acordo com relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde), divulgado em janeiro de 2024, o Brasil obteve uma redução relativa de 35% desde 2010. Porém, parar não é uma tarefa fácil. Gerson Mário de Abreu, professor universitário de 55 anos, relata suas tentativas para cessar o hábito. “Eu fui na onda, a gente era bombardeado com propagandas […] Muitos amigos meus conseguiram sair do vício. Eu ainda não, mas um dia eu vou sair.”
O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece tratamento gratuito para quem deseja parar de fumar, com medicamentos como adesivos, pastilhas, bupropiona e gomas de mascar – tratamento de reposição de nicotina. Basta ir a um posto de saúde ou à Secretaria de Saúde do município.
Há quem diga que fumar saiu de moda – e de fato, existem números sobre a queda do tabagismo, e eles não mentem. Mas será que o hábito está mesmo em queda ou apenas mudou de visual?
A popularidade dos cigarros eletrônicos entre os jovens se tornou a nova preocupação dos órgãos de saúde. Apesar de a venda ser proibida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) desde 2009, sua comercialização permanece clandestinamente no Brasil.
De acordo com a ‘Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology’, revista médica publicada pela norte-americana Mosby, o uso desses dispositivos pode causar os mesmos danos que o cigarro convencional. O líquido usado para abastecer o cigarro eletrônico apresenta uma alta concentração de nicotina e substâncias tóxicas.
O consumo desse tipo de substância pode ser incentivado por vários fatores, como a curiosidade, o ‘estilo’, o sabor ou até mesmo a influência de familiares e amigos. Há estudos – e casos – que comprovam os efeitos na saúde.
O charme de antigamente pode ter desaparecido, mas o vício, infelizmente, persiste. Seja no cigarro convencional ou nos modernos vapes, o tabagismo ainda representa um desafio de saúde pública, capaz de cativar novas gerações mesmo com todos os alertas e evidências dos danos.
O glamour associado ao hábito nos tempos passados deu lugar a um olhar mais consciente, mas as tentativas de escapar do vício mostram que o desafio ainda é real. Afinal, o cigarro pode ter mudado de embalagem e formato, mas seus perigos continuam os mesmos, exigindo uma conscientização constante e um compromisso verdadeiro com a saúde.
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